Não existe um preço único para a transição regenerativa, nem um prazo de retorno igual para todas as fazendas. O que existe é um padrão: no começo, você quase sempre soma custos em vez de trocar um pelo outro, e o retorno só aparece para quem acompanha os números por safra. Foi esse o recado do produtor e engenheiro agrônomo Marcelo Chiapeta na live de abertura da Missão Safra 2025, conduzida por Pedro Dusso, diretor executivo da Aegro.
O blog já explica o que é agricultura regenerativa e quais práticas usar. Aqui o foco é outro: custo de transição, caixa, crédito e retorno. A pergunta que decide se a mudança vai para frente ou é abandonada no segundo ano é simples: você já calculou quanto vai custar o primeiro e o segundo ano na sua fazenda, e de onde vai sair esse dinheiro?
Ao final, você terá um roteiro para planejar a transição com os pés no caixa, a partir da experiência de uma operação de soja, milho e pecuária no Rio Grande do Sul.
Índice
- Quanto custa a transição, na prática?
- Onde o retorno aparece
- Produtividade não é lucro
- Como lançar o custo do insumo que você mesmo produz
- Planejamento de caixa para os anos ruins
- E o crédito de carbono entra na conta?
- Roteiro para montar o plano da sua fazenda
- Glossário
- Veja como o Aegro pode ajudar
- Perguntas frequentes
Quanto custa a transição, na prática?

Figura 1. Acompanhar os custos por safra é o que sustenta a transição regenerativa. Fonte: Aegro (ilustração gerada por IA).
Chiapeta não apresentou um valor em reais por hectare, e vale ser claro sobre isso: cada propriedade tem solo, clima e histórico diferentes, e ele defende que cada fazenda busque a própria régua e se compare consigo mesma. O que ele deixou claro é de onde vem o custo.
Por que o custo não cai no início
Você não vai deixar de fazer o manejo que já faz para começar algo novo. Se a lavoura depende hoje de adubação e controle de doenças, isso continua. Então, no início, entram plantas de cobertura, adubo orgânico ou bioinsumos por cima do que já existe. Nas palavras dele, às vezes no começo você não gasta menos.
Por isso a transição precisa ser gradual. Não existe bala de prata: o que funciona é o conjunto de boas práticas de manejo.
O risco de só trocar de pacote
Há uma armadilha que ele descreveu bem: sair do pacote tecnológico químico e cair em um pacote tecnológico biológico. O sistema pode ficar mais resiliente, com mais vida no solo, mas o custo talvez não mude. Se isso acontecer sem aumento de rentabilidade, você só migrou o custo de lugar e volta a depender apenas de produzir mais para fechar a conta.
A saída é estudar o que está sendo recomendado. Antes de adotar uma prática, saiba o que ela substitui e quanto deve poupar.
Onde o retorno aparece
O retorno da transição regenerativa vem por mais de um lado, e nem sempre como queda imediata de custo.
Bioinsumos: 8% do custo de insumos
Na fazenda de Chiapeta, os bioinsumos, que incluem biofertilizantes produzidos na propriedade e também os comprados prontos, somam cerca de 8% do custo total de insumos. Ele descreveu o retorno desse investimento como fantástico. É um dado de uma operação específica, no Sul do país, em solo argiloso, e não uma média do setor. Use como referência de ordem de grandeza para testar na sua realidade, não como promessa.
Para enxergar essa proporção, ele usa os gráficos de custo por insumo do Aegro, que mostram quanto do total vai para fertilizante, fungicida, semente, diesel e irrigação. Sem esse recorte, não dá para saber quanto a mudança pesa na safra. Para entender o que são e como usar, leia o guia sobre bioinsumos.
Menos aplicação, mais durabilidade do defensivo
O segundo ganho é usar menos, e usar melhor. Chiapeta não abre mão do manejo químico, principalmente contra a ferrugem asiática, que ele chama de doença muito agressiva. O ponto é a consciência: decidir cada aplicação com base em risco e monitoramento, não por calendário. Contra a ferrugem, o programa continua preventivo e começa antes dos primeiros sintomas; ele faz a proteção principal no fechamento de linha.
Ele citou uma área em que uma única aplicação de fungicida sustentou 90 sacas por hectare, e disse que é aí que vê a máxima rentabilidade: produtividade com eficiência produtiva. Também questionou a aplicação extra feita só por rotina, sem avaliar o risco, que comparou a tomar antibiótico toda vez que entra em um metrô lotado (ele citou a aplicação “V0”, tema em que os técnicos divergem). Cortar aplicação que não se justifica já melhora a margem, e ainda preserva a eficácia do produto para quando ele for realmente preciso. Quem decide o programa de fungicida é o seu agrônomo, com base na pressão de doença da sua região.
Produtividade não é lucro
Chiapeta foi direto: mostrar altas produtividades, por si só, não significa nada. O resultado de uma lavoura depende tanto do que se colhe quanto do que sobra depois do custo. Durante muito tempo, a lógica foi colocar mais insumo para produzir mais, e isso levou a produzir de uma forma financeiramente equivocada.
Para quem planeja a transição, a pergunta mais útil é quanto sobra por talhão, não quantas sacas por hectare. Os gráficos de produtividade por área e o comparativo entre safras mostram quais áreas renderam mais e como cada ano puxou a média. Para montar essa visão, comece pelo custo de produção por hectare.
Como lançar o custo do insumo que você mesmo produz
Uma das perguntas da audiência foi se a agricultura regenerativa muda o jeito de calcular custos e margens. Na resposta dele, muda, principalmente para quem monta uma biofábrica na fazenda.
O motivo é o estoque. Você compra matéria-prima, e o volume de estoque cresce, porque o insumo final rende muito mais do que o que foi comprado. Há duas formas de lançar:
- Como matéria-prima: o custo total entra de uma vez na área.
- Como produto próprio: você calcula o custo do bioinsumo produzido para uso próprio e lança conforme vai usando.
Chiapeta trabalha da segunda forma. O início dá trabalho, porque algumas receitas de biofertilizante reúnem mais de 50 elementos, mas depois fica fácil. O importante é estruturar os lançamentos desde o primeiro dia, para o custo da biofábrica aparecer no resultado da safra.
Planejamento de caixa para os anos ruins
Aqui o tema deixou de ser só manejo. O gráfico de produtividade da fazenda de Chiapeta mostra três quedas profundas, ligadas às três últimas grandes estiagens, e ele lembrou que chuva demais também pode acontecer. Ninguém prevê a produtividade do próximo ano, mas dá para se preparar.
Reserve nos anos bons
O recado é guardar recurso quando o ano é bom. Na região dele, ele estima uma seca severa a cada seis anos, e a proposta é ter um fundo de reserva que garanta pelo menos uma safra à frente, com independência financeira. Pedro Dusso reforçou na conversa: não dá para passar a vida tomando dinheiro em bancos e renegociando quando chegam os anos de vacas magras.
Há um limite: se você se prepara demais, o custo sobe. Por isso a decisão é gradual, e não uma alavancagem feita de uma vez.
Compre aos poucos, e só o que precisa
Ele deu um exemplo que serve de alerta. Você fecha um barter porque o preço do fungicida está bom e compra o equivalente a quatro aplicações. Vem uma seca, e você fica com o depósito cheio de defensivo para usar nos anos seguintes, sem a safra ter começado. As práticas que ele defende:
- Comprar somente quando necessário, com uso consciente de insumo.
- Comprar à vista sempre que possível.
- Testar o barter em fatia pequena, por exemplo 5% ou 10% do fertilizante, até entender a dinâmica, antes de chegar à metade.
- Comprar máquina só com necessidade real. Para ele, um conjunto de plantadeira e trator custa mais ou menos o mesmo que um pivô para 100 hectares, e o pivô funciona como um seguro de produtividade.
- Comercializar um pouco ao longo do ano, em vez de apostar tudo em um único momento.
- Investir em armazenagem própria, para ter autonomia e equilibrar grão físico e aplicações financeiras.
Para comparar as alternativas com a mesma régua, veja o artigo sobre barter ou financiamento bancário.
Crédito: ferramenta de investimento, não de socorro
A posição dele sobre crédito é clara. O financiamento é uma ferramenta fantástica para grandes investimentos, mas ele não quer que a fazenda dependa dele para fechar a safra. A ideia é deixar de ser apenas tomador de crédito e, com reserva própria, passar a ser também fornecedor de crédito.
Ele reconheceu o lado difícil: é complicado planejar cinco anos quando mal se planeja um. Mesmo assim, defende buscar profissionais de finanças agrícolas, um perfil ainda raro nas propriedades. Se você precisa de crédito na transição, o guia de crédito rural ajuda a entender as linhas e a comparar o custo de cada uma.
E o crédito de carbono entra na conta?
Pedro Dusso perguntou se o manejo regenerativo pode ser um primeiro passo para receita com créditos de carbono. A resposta de Chiapeta foi cautelosa: a agricultura fixa carbono, mas o desafio é medir e certificar com confiança suficiente para compradores de fora do país. Ele disse não conhecer ninguém remunerado por carbono sem ter de usar algo em troca, como um adubo específico.
Na prática, trate o carbono como possibilidade futura, não como receita do plano financeiro. Para acompanhar o tema, leia sobre crédito de carbono.
Roteiro para montar o plano da sua fazenda
Com base no que foi dito na live, este é um caminho prático:
- Defina o objetivo. Reduzir custo sem perder produção? Dar resiliência ao sistema? Ele orienta quais práticas entram primeiro.
- Meça o ponto de partida. Levante o custo por hectare e por insumo de cada talhão. Sem isso, não há como saber se a mudança deu retorno.
- Comece pequeno. Escolha uma área piloto e acrescente uma prática por vez, sem abandonar o manejo que já funciona.
- Projete o primeiro e o segundo ano como custo somado. Defina de onde vem o recurso antes de começar.
- Registre o custo dos bioinsumos próprios. Escolha a forma de lançamento e mantenha o critério.
- Compare com você mesmo. Use a sua série de safras como régua.
- Monte a reserva nos anos bons. Separe parte do resultado para seca ou excesso de chuva.
- Busque acompanhamento. Consultoria e associações ajudam, mas você precisa entender o que está sendo indicado.
Glossário
Veja como o Aegro pode ajudar
Transição regenerativa só se sustenta com número. Você precisa saber quanto cada insumo pesa no custo, qual talhão rendeu mais e como cada safra se compara com a anterior.
No Aegro, você lança custos e atividades por talhão e acompanha o resultado da safra em relatórios e gráficos. Assim, o que a prática mudou aparece no custo e na margem, e a decisão da próxima safra parte de dado real.
Teste o Aegro de graça e veja os números da sua fazenda.
Perguntas frequentes
Quanto custa adotar a agricultura regenerativa?
Não há um valor único, porque depende do solo, do clima e do que a fazenda já faz. No início, o custo costuma ser somado ao do manejo atual, e só depois pode cair. Por isso, o primeiro e o segundo ano devem entrar no planejamento como anos de investimento.
Qual é o retorno financeiro da agricultura regenerativa?
O retorno vem de menos aplicações de defensivo, de insumos mais enxutos e de um sistema mais resiliente em anos difíceis. Na experiência apresentada na live, os bioinsumos representam cerca de 8% do custo de insumos, com bom retorno. O ganho só é comprovado quando você mede custo e produtividade por talhão, safra a safra.
Em quanto tempo o investimento se paga?
Não há prazo fixo. A live não apresentou um número de meses ou safras, e a recomendação foi cada fazenda criar a sua própria régua e se comparar com o próprio histórico.
A transição exige financiamento?
Não necessariamente. A orientação foi reduzir a dependência de crédito, usar financiamento para grandes investimentos e formar reserva nos anos bons. Se precisar de crédito, compare o custo efetivo total das opções antes de decidir.
O manejo regenerativo permite parar de usar defensivo químico?
Não é a proposta. Segundo Chiapeta, o objetivo é usar com consciência, com base em risco e monitoramento, para que o produto funcione melhor quando for realmente preciso. Em doenças agressivas como a ferrugem, o controle continua preventivo.
Dá para ganhar com crédito de carbono?
Ainda é incerto. O desafio é medir e certificar a captura de carbono, e o produtor ouvido na live disse não conhecer alguém remunerado sem contrapartida. Considere como oportunidade futura, não como receita planejada.
