O barato do carrinho é onde você deixa dinheiro na mesa
O Brasil importou cerca de US$ 4,8 bilhões em defensivos entre janeiro e maio de 2026, com a China respondendo por 72% do valor dos herbicidas formulados. A onda de genéricos e o salto nas importações formam o pano de fundo do ano, não uma notícia da semana sobre o cletodim. O Aegro Insights foi checar o que sobra desse cenário na ponta, onde o preço de verdade aparece: a nota fiscal.
O cletodim é o graminicida mais comprado depois do glifosato, e é o dado mais limpo de toda a lista de defensivos que analisamos. Com 93% do volume numa única concentração, 240 g/L, dá para comparar maçã com maçã sem o trabalho extra que outros produtos exigem.
E o que aparece é direto. No mesmo produto químico, na mesma dose comercial, o preço pago varia de forma grande conforme de quem você compra, como você paga e onde você está. Com a compra da 26/27 ainda em aberto, essa é a parte que você ainda decide.
Índice
- O preço, em número redondo
- A marca no rótulo não prevê preço nem dose
- Onde a diferença explode: dentro da mesma safra
- O “sem juros” tem juro, e mais alto que o do glifosato
- A conta que muda entre estados
- O sinal para a 26/27
- Vamos lá?
O preço, em número redondo
Na safra 25/26 fechada (abril de 2025 a março de 2026), a mediana do cletodim 240 g/L ficou em R$ 36,00/L, o equivalente a R$ 20,74/ha na dose de aplicação. Colocado lado a lado com a mediana da soja no mesmo período (R$ 118,20/sc60), isso dá 0,18 saca por hectare.
É um custo pequeno diante do glifosato e diante do valor da lavoura. Mas é justamente num item de tíquete baixo que você tende a não negociar, e é aí que a distribuição de preços guarda as surpresas. O item de decisão real não é “se compro”. É de quem compro e como pago.
A marca no rótulo não prevê preço nem dose
Este é o corte que mais dói. Comparando maçã com maçã, dentro da mesma concentração de 240 g/L, a marca de maior volume de compras, a que todo mundo compra, é também a mais cara por litro: R$ 38,80/L e R$ 22,51/ha, um prêmio de 21,3% sobre a mais barata do lote (R$ 32,00/L e R$ 18,65/ha). Ou seja: “a marca que todo mundo compra” não é sinônimo de “a marca mais barata”.
Repare no que isso não é. Não existe uma marca de patente contra genérico barato aqui: são todas formuladoras de genérico. Então a diferença de 21,3% não é prêmio de tecnologia. É dispersão de canal e negociação. É o mesmo produto que varia muito de preço, e é isso que fica na sua mão na hora de cotar.
Um segundo caso mostra por que preço por litro, sozinho, engana. Uma marca quase tão cara por litro, a R$ 38,00/L, entrega R$ 18,72/ha, um dos menores custos por hectare do lote. A leitura não é que ela é “cara”: é que os produtos dela na amostra aplicam dose recomendada mais baixa. Quem olha só a etiqueta por litro conclui uma coisa; quem coloca o R$/ha ao lado conclui o oposto. Por isso os dois números precisam andar juntos: o R$/L isola a negociação, o R$/ha carrega também a dose praticada.
Onde a diferença explode: dentro da mesma safra
O corte por marca abre uma parte da variação. A distribuição dentro da mesma concentração abre o resto, e é ela o corte mais revelador: a diferença entre produtores no mesmo ano.
No cletodim 240 g/L da safra 25/26, quem comprou bem pagou R$ 28,00/L, o preço mínimo. Quem comprou mal pagou R$ 48,17/L, o preço máximo. Da mínima à máxima, a ponta cara desembolsou 72,0% a mais por litro pelo mesmo produto.
Em custo por hectare a distância é ainda maior. Do mínimo de R$ 15,79/ha ao máximo de R$ 28,28/ha vão 79,1% de diferença, ou R$ 12,49/ha. Numa fazenda de 1.000 hectares aplicando na dose mediana, isso é cerca de R$ 12,5 mil a mais por aplicação, sem trocar de produto, sem trocar de concentração, só de timing e de negociação.
O gap por hectare (79,1%) ficou maior que o gap por litro (72,0%) por um motivo prático: a ponta cara não reflete só preço unitário mais alto, reflete também dose por hectare mais alta. Mais uma prova de que R$/L e R$/ha contam histórias diferentes, e de que a distância entre comprar perto da mínima e perto da máxima é grande o bastante para pesar no seu custo operacional.
O “sem juros” tem juro, e mais alto que o do glifosato
Há um custo que não aparece na etiqueta, o do prazo. Na safra 25/26, a compra a prazo de cletodim saiu, na mediana, a R$ 37,00/L, com prazo mediano de 174 dias. A compra à vista saiu a R$ 33,97/L, com prazo mediano de 16 dias.
São 8,9% a mais para financiar cerca de 158 dias adicionais, o que equivale a uma taxa implícita de aproximadamente 21,8% ao ano embutida no parcelamento. É um contraste que merece atenção: no glifosato, na mesma safra, essa taxa implícita ficou em torno de 14,7% ao ano. O juro escondido no prazo do cletodim é bem mais salgado.
O ponto prático: peça a taxa implícita do seu prazo e compare com o custo do crédito bancário ou da CPR que você tem disponível antes de decidir entre à vista com desconto e parcelado. A régua é o número da sua operação, não um padrão de mercado.
A conta que muda entre estados
O preço também não é o mesmo entre as regiões produtivas. O Paraná foi o estado mais caro da safra 25/26, com mediana de R$ 37,45/L e R$ 21,46/ha. O Mato Grosso do Sul ficou na outra ponta em preço por litro, a R$ 33,97/L.
O Mato Grosso repete o padrão já visto no glifosato: preço por litro no meio da tabela, mas o menor R$/ha da amostra, R$ 19,25/ha. Não é a tabela mais barata, é dose menor por hectare. Olhar o R$/L sem o R$/ha esconde metade da conta.
Uma nota para quem está na fronteira: o MATOPIBA, mesmo como região emergente, já iguala o Paraná em preço por litro (R$ 37,50/L e R$ 20,80/ha). Vale monitorar se o custo logístico de expansão de fronteira começa a entrar no preço do defensivo.
O sinal para a 26/27
Comparar a safra 25/26 fechada com a 26/27 ainda parcial dá a impressão de queda, mas é uma armadilha. A safra fechada mistura os 12 meses do ano agrícola, incluindo o pico de preço do fim de 2025, enquanto a 26/27 só tem os primeiros meses, tipicamente mais baratos. A comparação que não sofre esse viés é a de mesmo ponto do ciclo, ano contra ano.
E ela mostra alta. No período de abril a julho, a 26/27 entra a R$ 34,50/L e R$ 19,88/ha, contra R$ 32,75/L e R$ 18,93/ha no mesmo intervalo de 2025, ou seja 5,3% mais cara por litro e 5,0% mais cara por hectare. É alta real, moderada, compatível com o pano de fundo de importações em alta, não uma disparada.
Somado à sazonalidade, o preço tende a subir ao longo do ano agrícola, o recado fica direto: quem comprar cedo, na entressafra, tende a repetir a vantagem histórica; quem esperar o pico de demanda paga o prêmio de sempre, agora sobre uma base mais alta. E a variável que mais separa quem paga bem de quem paga mal não é o momento do ciclo. É o fabricante e o prazo que você escolhe.
Vamos lá?
A distribuição de preço desta análise é a mediana nacional das notas fiscais. A conta que decide o seu pedido é a da sua região e do seu fabricante, e ela só aparece quando você compara nota contra nota. É isso que o Compare Preços faz dentro do Aegro: mostra o preço real do cletodim por região, a partir das NF-e, para você chegar na mesa de negociação sabendo se a cotação que recebeu está acima ou abaixo do que o mercado à sua volta está pagando.
Antes de fechar a compra da 26/27, faça três movimentos. Cote pelo menos três fabricantes na concentração 240 g/L. Pergunte a taxa implícita do prazo oferecido. E compare a sua última compra com a mínima e a máxima praticadas perto de você.
Aegro é a casa do dado de NF-e. Com o preço real por região e por fabricante na mão, você para de negociar no escuro e fecha o cletodim da 26/27 sabendo de que lado da conta está.
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Nota de método: todos os números vêm de nota fiscal real registrada na Aegro, não de estimativa ou preço sugerido por fornecedor. A comparação por fabricante e a dispersão de preço foram restritas à concentração dominante do cletodim, 240 g/L, que responde por 93% do volume da safra 25/26, para comparar produtos equivalentes sem misturar formulação. Os cortes de série temporal, região e prazo usam o universo completo de cletodim. Todos os fabricantes comparados são de genérico, então a diferença de preço não é prêmio de tecnologia, é dispersão de canal e negociação. O prêmio entre fabricantes lê-se pelo R$/L, que isola a dose, com o R$/ha ao lado. A relação de troca com a soja usa a mediana nacional, boa como ordem de grandeza. As medianas saem de uma função estatística aproximada: a segunda casa decimal pode oscilar de uma execução para outra, sem alterar as conclusões. A comparação entre safras usa o mesmo ponto do ciclo (abril a julho), já que confrontar safra fechada com 26/27 parcial infla a impressão de queda por viés de sazonalidade.

