Colheita de Cítricos: Guia Prático do Ponto Ideal [2025]

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Índice

Como Saber a Hora Exata de Colher? (Não é Só Olhar a Cor)

Você já viu aquele lote de laranja que estava “bonito por fora, mas seco por dentro”? Isso acontece quando o produtor confia só no olho e esquece da balança e do refratômetro. No Brasil, onde o calor é forte, a casca engana: a fruta pode estar doce, mas ainda verde por fora.

Para não perder dinheiro mandando fruta ruim para o mercado (ou indústria), você precisa olhar três coisas: quantidade de suco, doçura (°Brix) e acidez.

Na prática, para laranjas e tangerinas, os números mágicos geralmente são:

  • Suco: Mínimo de 35% a 45% (depende da variedade).
  • Doçura (Sólidos Solúveis): Entre 9 e 10 °Brix.
  • Ratio (Relação Doçura/Acidez): Entre 8,5 e 10.

Como fazer a conta do suco na fazenda? Esqueça contas complicadas de laboratório. O jeito prático que funciona no galpão é assim:

  1. Pese a fruta inteira (ex: 200g).
  2. Esprema tudo e coe.
  3. Pese só o suco (ex: 100g).
  4. Divida o peso do suco pelo peso da fruta e multiplique por 100.
    • Conta: (100 ÷ 200) x 100 = 50% de suco.

No caso do limão Tahiti, o sinal visual ajuda mais: a casca fica lisa (perde a rugosidade), ganha uma cor verde-clara brilhante e precisa ter pelo menos 40% de suco.

💡 DICA DE QUEM JÁ FEZ: Não pegue fruta de um pé só. Caminhe pelo talhão e pegue amostras de plantas diferentes e de alturas diferentes para ter uma média real do seu pomar antes de mandar a equipe de colheita entrar.


Tesoura ou Mão? O Dilema da Colheita

Sabe aquela discussão antiga: “Arrancar na mão rende mais, mas a tesoura paga melhor”? A verdade é que depende para quem você vai vender.

Se o destino é indústria, o arranquio (torção e puxada) é mais rápido. Mas cuidado: isso machuca a fruta na inserção do talo (pedúnculo). Essa ferida é a porta de entrada para podridão.

Agora, se você vende fruta de mesa, exportação ou tangerinas, a tesoura é obrigatória. O arranquio rasga a casca da tangerina fácil demais.

O segredo do corte duplo: Para não furar a fruta vizinha dentro da caixa, a colheita com tesoura tem que ser em duas etapas:

  1. Corta o galho para tirar a fruta da árvore.
  2. Corta o talinho (pedúnculo) bem rente ao cálice (“botão”). Tesoura de ponta redonda e lâmina curta é o ideal.

Transporte: Onde a Fruta Apanha (Literalmente)

Muitas vezes, o produtor cuida bem o ano todo e perde a qualidade no trajeto de 2km entre o pomar e o barracão. Estrada esburacada e caixa cheia demais são prejuízo na certa.

O transporte ideal é em caixas plásticas limpas. Por que não madeira? A madeira é áspera, machuca a casca e é difícil de lavar, acumulando fungo de uma safra para outra. O papelão é ótimo para a venda final, mas caro para o transporte interno.

⚠️ ATENÇÃO: Nunca encha a caixa até a boca (“boca de palhaço”). Se uma caixa apoiar em cima das laranjas da caixa de baixo, você vai ter fruta amassada e estragada. Respeite o limite da borda.


“Desverdecimento”: Deixando a Fruta com a Cor que o Mercado Quer

O consumidor brasileiro “come com os olhos”. Se a laranja está verde, ele acha que está azeda, mesmo que o Brix esteja ótimo. Isso é comum em regiões quentes, onde a noite não esfria o suficiente para a casca ficar laranja naturalmente.

Para resolver isso, usamos o desverdecimento (aplicação de etileno ou ethephon). É uma técnica que quebra o verde (clorofila) e faz o amarelo/laranja aparecer.

Mas cuidado, isso não é brincadeira! Não saia aplicando produto de qualquer jeito.

  • A dose: Muita gente fala em mergulhar em solução de ethephon, mas a dose e o tempo variam. Rótulos antigos falavam em até 4.000 mg/L, mas isso é agressivo. Doses menores (1.000 a 2.000 mg/L) muitas vezes funcionam bem e estragam menos a fruta. Sempre leia a bula do produto atualizado.
  • A temperatura: Se o calor passar de 28°C-30°C, o processo para e você só cozinha a fruta. O ideal é entre 20°C e 25°C.
  • O risco: O etileno acelera o envelhecimento. A fruta fica bonita, mas dura menos na prateleira e pega doença mais fácil se não for bem tratada depois.

📊 NÚMEROS QUE IMPORTAM: A solução de tratamento pode ser reaproveitada, mas não eternamente. Embora alguns digam “até 6 meses”, na prática, a sujeira e a perda de eficácia pedem trocas frequentes e monitoramento do pH da calda. E lembre-se: use EPI (Equipamento de Proteção Individual) completo. É produto químico.


Lavagem, Cera e Seleção: O “Banho de Loja”

Depois que a fruta chega no packing house, ela precisa ficar apresentável. A aplicação de cera (carnaúba ou polímeros) não é só vaidade.

A cera faz dois serviços essenciais:

  1. Dá brilho (vende mais).
  2. Tapa os poros da casca, evitando que a fruta perca água, murche e perca peso.

Na seleção, sua equipe precisa ter olho clínico. O que vai para o descarte? Fruta furada, podre, com manchas graves ou muito fora do tamanho (diâmetro). A classificação final, que vai no rótulo, depende da cor, tamanho (calibre em mm) e categoria (porcentagem de defeitos aceitáveis).


Armazenamento Refrigerado: O Frio é Bom, mas Queima

Seu vizinho guardou o limão na câmara fria e, quando tirou, a casca estava cheia de manchas vermelhas ou marrons? Isso é injúria pelo frio (chilling injury).

A refrigeração é vital para segurar o preço e vender na entressafra, mas cada citros tem sua temperatura:

  • Temperaturas muito baixas causam manchas na casca.
  • Umidade baixa demais faz a fruta secar.
  • Umidade alta demais (acima de 90-95% sem ventilação) cria mofo.

O ponto de equilíbrio: Para a maioria das laranjas e tangerinas, a faixa segura costuma ficar entre 3°C e 8°C (dependendo da variedade), mas limões e algumas limas ácidas são mais sensíveis e pedem temperaturas um pouco mais altas (acima de 10°C) para não manchar.

💡 DICA DE QUEM JÁ FEZ: A ventilação dentro da câmara é tão importante quanto o frio. O ar tem que circular entre as caixas e paletes, senão o “miolo” do palete esquenta e a fruta estraga.


Embalagem e Rastreabilidade: O Nome do Produtor em Jogo

No final das contas, como sua fruta chega ao cliente?

  • Caixa de Madeira (K-box): Resistente, mas anti-higiênica e machuca a fruta. O mercado está abandonando.
  • Papelão Ondulado: Mais caro, mas higiênico, reciclável e protege muito bem. É o padrão de qualidade hoje.
  • Sacos de rede (5kg): Práticos para o consumidor, mas devem viajar dentro de caixas ou contentores para não serem esmagados no caminhão.

Rastreabilidade é Lei Não adianta fugir. Toda caixa ou sacaria precisa de rótulo. Mesmo que esteja tudo empilhado no palete (padrão PBR 1,00 x 1,20m), o comprador tem que conseguir ler quem produziu. Isso garante que, se der um problema lá na ponta, eles sabem onde encontrar a origem – e se sua fruta for boa, sabem onde comprar de novo.


Glossário

°Brix (Sólidos Solúveis): Unidade de medida que indica a quantidade de açúcares dissolvidos no suco da fruta, sendo o principal índice para determinar a maturidade e o valor comercial na citricultura brasileira.

Ratio: Relação matemática obtida pela divisão do teor de açúcares (°Brix) pela acidez da fruta. É o indicador mais preciso do equilíbrio de sabor e do momento ideal de colheita para o consumo.

Pedúnculo: Estrutura botânica que liga o fruto ao ramo da planta, conhecida popularmente como talo. Seu corte correto é vital para evitar ferimentos na casca que favorecem a entrada de fungos pós-colheita.

Desverdecimento: Processo de pós-colheita que utiliza reguladores vegetais para degradar a clorofila da casca, expondo os pigmentos naturais amarelados ou alaranjados. É uma técnica essencial em regiões tropicais onde a amplitude térmica é baixa para a coloração natural.

Packing House: Unidade de beneficiamento e processamento onde os frutos são lavados, selecionados, tratados e embalados para o mercado. Funciona como o centro de controle de qualidade e padronização da produção antes da logística final.

Injúria pelo Frio (Chilling Injury): Distúrbio fisiológico causado pelo armazenamento de frutos em temperaturas abaixo do limite de tolerância da espécie. Manifesta-se através de manchas escuras ou depressões na casca, prejudicando a aparência e a vida de prateleira.

Etileno: Hormônio vegetal natural, na forma de gás, que regula o processo de amadurecimento e senescência das plantas. No manejo citrícola, é aplicado de forma controlada para uniformizar a cor dos frutos destinados ao mercado de mesa.

Como a tecnologia ajuda na precisão da colheita e pós-colheita

Organizar o calendário de colheita e acompanhar os custos de cada etapa, do pomar ao packing house, é fundamental para o sucesso da citricultura. Ferramentas como o Aegro ajudam a centralizar os registros de análises de maturação (°Brix e acidez) por talhão, permitindo que o produtor tome decisões baseadas em dados reais e planeje a logística com antecedência. Além disso, ao digitalizar o controle operacional, o gestor consegue monitorar o rendimento das equipes e identificar gargalos no transporte, evitando desperdícios e garantindo que a rentabilidade da safra não se perca no trajeto.

Vamos lá?

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Perguntas Frequentes

Como posso calcular a porcentagem de suco da minha produção de forma prática?

Para calcular o suco, pese a fruta inteira, extraia o suco, coe-o e pese-o separadamente. Em seguida, divida o peso do suco pelo peso total da fruta e multiplique por 100. Esse método simples ajuda a verificar se a fruta atingiu o rendimento mínimo exigido, que geralmente varia entre 35% e 45% dependendo da variedade.

Qual é a principal diferença entre colher citros com tesoura ou manualmente?

A colheita manual por arranquio é mais rápida e comum para a indústria de sucos, mas pode ferir a fruta no local do talo, facilitando a podridão. Já o uso da tesoura é obrigatório para frutas de mesa, exportação e tangerinas, pois evita rasgos na casca e preserva a integridade estética necessária para o mercado de frescos.

Por que é importante aplicar cera nas frutas cítricas antes da comercialização?

A aplicação de cera, como a de carnaúba, vai além da estética e do brilho para atrair o consumidor final. Ela atua vedando os poros da casca, o que reduz drasticamente a perda de água por transpiração, impedindo que a fruta murche e perca peso comercial durante o transporte e o tempo de prateleira.

Quais são os riscos de um processo de desverdecimento mal executado?

Se a temperatura ultrapassar os 30°C durante o desverdecimento, o processo para e a fruta pode acabar ‘cozinhando’. Além disso, o uso excessivo de etileno acelera o envelhecimento natural do citros, o que reduz sua durabilidade na gôndola e aumenta a sensibilidade a doenças se não houver um tratamento preventivo adequado.

O que causa manchas na casca de limões armazenados em câmaras frias?

Essas manchas são conhecidas como ‘injúria pelo frio’ (chilling injury) e ocorrem quando a temperatura é excessivamente baixa para a sensibilidade da fruta. Enquanto laranjas toleram entre 3°C e 8°C, limões e limas ácidas são mais sensíveis e exigem temperaturas acima de 10°C para evitar danos na casca e manter a qualidade visual.

Por que o transporte em caixas de plástico é preferível ao uso de madeira?

As caixas plásticas são mais higiênicas, fáceis de lavar e não acumulam fungos entre as safras, ao contrário da madeira, que é porosa e áspera. Além disso, o acabamento liso do plástico evita ferimentos na casca das frutas, reduzindo as perdas por danos físicos durante o trajeto entre o pomar e o barracão.

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