Dormência da Pereira: Horas de Frio e Brotação [Guia 2025]

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Índice

O que é essa tal de dormência e por que ela importa?

Você já viu aquele pomar que parece uma “colcha de retalhos”? Um pé está cheio de flor, o outro do lado ainda está dormindo, e aquele lá no fundo já tem folhas. Isso é dor de cabeça na certa para colher e tratar. O culpado? A dormência mal resolvida.

Para a gente entender: a dormência nada mais é do que uma “soneca de segurança” que a pereira tira. Como ela veio de lugares muito frios, ela para de crescer visivelmente para não morrer congelada no inverno.

Mas não se engane. Por fora parece que a planta parou, mas por dentro ela está trabalhando a todo vapor, preparando as gemas para brotar quando o calor voltar. O problema é que, aqui no Brasil, o nosso “frio” às vezes não convence a planta de que o inverno já passou.


Quanto frio sua pereira precisa de verdade?

Muita gente me pergunta: “Seu Antônio, plantei a pera, mas ela não vem. O que houve?”. A primeira coisa que eu olho é o termômetro da região.

A pereira precisa acumular horas de frio (abaixo de 7,2 °C) para entender que pode acordar. É como carregar uma bateria. Se não carregar até o 100%, ela não liga.

Mas atenção: nem toda pera é igual. Umas são mais “friorentas” que outras. Olha só essa lista das principais variedades plantadas aqui:

📊 NÚMEROS QUE IMPORTAM: Exigência de Frio (Horas < 7,2°C)

  • Cascatense: Baixa exigência (cerca de 400 horas). Floresce cedo, lá no início de agosto.
  • Packham’s Triumph: Média exigência (precisa de mais frio). Floresce só em setembro.
  • Rocha (Europeia): Alta exigência. Se não fizer muito frio, ela sofre.

E se fizer calor no meio do inverno? Aqui mora o perigo. Se fizer dias quentes (acima de 20 °C), a planta se confunde. Esse calor pode “anular” o frio que ela já juntou. O ideal, num mundo perfeito, seria ter mais de 30 dias seguidos abaixo de 20 °C. Como a gente não controla o tempo, precisamos monitorar.


Quando o inverno não ajuda: O manejo da “quebra” de dormência

Se o inverno foi “morno” e você percebeu que não deu as horas de frio necessárias, não dá para ficar rezando. É hora de agir com a indução de brotação.

Se as folhas não caíram sozinhas até 30 dias antes de você aplicar o indutor, você vai precisar derrubá-las na marra. Folha velha no pé atrapalha o remédio de pegar na gema.

  • O que usar para derrubar folha: Oxicloreto de cobre, sulfato de cobre ou ureia.

Produtos e estratégias de aplicação

Para “acordar” a planta, o “café forte” que a gente usa no campo geralmente é:

  1. Óleo mineral (sozinho ou misturado).
  2. Cianamida hidrogenada (o mais potente, mas perigoso).
  3. Nitrato de potássio (ajuda a nutrir também).
  4. Nitrogênio inorgânico.

No sistema orgânico, sua única opção é a mistura de óleo mineral com calda sulfocálcica. Funciona, mas tem eficiência menor nas gemas laterais, então o manejo de poda tem que ser ainda mais caprichado.

Volume de Calda: O segredo é molhar bem, mas sem lavar o chão. Você precisa atingir as gemas, principalmente nos ramos do ano.

  • Use entre 500 a 1.000 Litros por hectare, dependendo do tamanho da copa.
  • Se usar menos água (baixo volume), tem que ajustar a concentração do produto para ficar proporcional.
  • Regra de Ouro: Quanto menos frio fez no inverno, mais forte precisa ser a dose do indutor para compensar.

⚠️ CUIDADO: Segurança e riscos da mistura

Aqui a conversa fica séria. Mexer com cianamida hidrogenada exige respeito. Não é só aplicar e pronto.

O erro que queima tudo: A cianamida NÃO combina com cobre (Cu), zinco (Zn) ou enxofre (S). Se você misturar isso, ou se tiver resíduo desses produtos na planta, vai formar uma substância tóxica que queima a planta (fitotoxidez) e anula o efeito do tratamento.

  • A regra é clara: Se precisou aplicar cobre ou zinco, espere pelo menos 30 dias antes de entrar com a cianamida.

E nem preciso falar do EPI, né? Luva, máscara, bota e macacão completo. A saúde da lavoura é importante, mas a sua e a do seu funcionário vêm primeiro.


A hora exata da aplicação: O “pulo do gato”

Você já perdeu o ponto do feijão? Na quebra de dormência é a mesma coisa. Se errar o dia, perde dinheiro.

O momento certo é no inchamento das gemas.

  • Isso acontece de 20 a 30 dias antes da data que você espera que brote.

O que acontece se errar o “timing”?

  • Aplicou muito cedo: A floração fica “espalhada” (longa demais), o que dificulta passar defensivo depois. E pior: aumenta o risco de pegar uma geada tardia na flor.
  • Aplicou muito tarde: Pode queimar as gemas e a florada vem toda de uma vez só (“estouro”). Parece bonito, mas falta energia para a planta e encurta o tempo de polinização.

Olho no Clima: Para o produto funcionar bem, a temperatura depois da aplicação precisa ajudar.

  • Ideal: Temperaturas do ar acima de 20 °C ajudam o produto a agir melhor.
  • Ruim: Abaixo de 10 °C, o efeito é fraco e atrasa tudo.
  • Chuva: Se chover em menos de uma hora após a aplicação, pode preparar o trator para reaplicar, porque lavou tudo.

Manejo físico: Ajudando a planta sem química

Nem tudo se resolve no pulverizador. Quem tem a mão boa na poda sai na frente.

Uma técnica antiga e que funciona muito é o arqueamento de ramos. Quando você enverga o ramo (principalmente na formação da planta), você diminui a força da ponta (dominância apical). Isso “engana” a planta, fazendo ela precisar de um pouco menos de frio para brotar bem.

Outras práticas que ajudam:

  • Incisão anelar.
  • Poda verde e poda pós-colheita.

E as mudas novas? Vai plantar pomar novo? Não tire do viveiro e jogue direto na cova.

  • Leve as mudas para uma câmara fria (4 °C a 6 °C) por 30 a 45 dias.
  • Mantenha a umidade alta (acima de 80%).

Isso garante que elas vão para o campo “descansadas” e brotem parelho.


Glossário

Horas de Frio (HF): Unidade de medida que contabiliza o tempo em que a planta fica exposta a temperaturas abaixo de 7,2 °C para completar seu repouso fisiológico. No Brasil, esse acúmulo é o principal indicador para determinar se a cultura terá uma brotação uniforme ou se precisará de intervenção química.

Cianamida Hidrogenada: Composto químico altamente potente utilizado para quebrar artificialmente a dormência das gemas, estimulando o despertar da planta em regiões com invernos irregulares. Exige manejo rigoroso de segurança e precisão na dosagem para evitar danos ao pomar.

Guia completo sobre as culturas de inverno

Fitotoxidez: Dano ou efeito tóxico causado aos tecidos da planta por substâncias químicas ou misturas incompatíveis, resultando em queimas de gemas e folhas. Ocorre frequentemente quando há resíduos de metais como cobre ou zinco antes da aplicação de indutores de brotação.

Dominância Apical: Tendência natural da planta em concentrar o crescimento na gema da ponta do ramo, impedindo que as gemas laterais se desenvolvam. O controle desse fenômeno é essencial para garantir que a planta produza frutos em toda a extensão dos seus galhos.

Arqueamento de Ramos: Técnica de manejo físico que consiste em inclinar os galhos para a posição horizontal para reduzir a força do crescimento vertical e estimular a brotação das gemas laterais. É uma alternativa sustentável que diminui a dependência de produtos químicos para a quebra de dormência.

Inchamento das Gemas: Estádio fenológico inicial onde as gemas começam a aumentar de volume e as escamas protetoras se afastam, sinalizando o fim do repouso. Este é o momento técnico ideal para a aplicação de indutores de brotação para garantir a máxima eficiência.

Incisão Anelar: Prática que consiste em realizar cortes superficiais na casca do tronco ou ramos para interromper temporariamente o fluxo de seiva. A técnica é utilizada para forçar a brotação de gemas dormentes e melhorar a distribuição de nutrientes na planta.

Calda Sulfocálcica: Mistura química à base de enxofre e cal utilizada no tratamento de inverno para controle de pragas e doenças, além de auxiliar na quebra de dormência em sistemas orgânicos. É uma ferramenta de manejo fitossanitário que exige atenção à temperatura no momento da aplicação.

Veja como o Aegro pode ajudar a superar esses desafios

Monitorar as horas de frio e acertar o exato momento para a quebra de dormência são passos críticos que definem a lucratividade da safra. Ferramentas como o Aegro ajudam a centralizar essas informações, permitindo que você registre o histórico climático e planeje as atividades de campo com precisão, garantindo que a aplicação dos indutores ocorra na janela ideal. Além disso, o sistema facilita o controle de estoque e custos dos insumos, ajudando a evitar o desperdício de produtos caros e garantindo que cada litro de calda aplicado seja convertido em produtividade.

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Perguntas Frequentes

Por que o calor excessivo durante o inverno é prejudicial para a pereira?

Dias com temperaturas acima de 20 °C durante o período de dormência podem ‘anular’ o frio que a planta já acumulou, confundindo seu ciclo biológico. Isso impede que a pereira atinja a meta de horas de frio necessária para uma brotação uniforme, resultando em um pomar desigual e com produtividade reduzida. O ideal para a cultura é a manutenção de temperaturas baixas constantes para garantir o ‘descanso’ completo da planta.

Como escolher a variedade de pera ideal para a minha região?

A escolha deve ser baseada no histórico de horas de frio (abaixo de 7,2 °C) da sua localidade. Variedades como a Cascatense são indicadas para climas mais amenos por precisarem de apenas 400 horas de frio, enquanto a Rocha exige um inverno muito mais rigoroso. Plantar uma variedade de alta exigência em um local quente resultará em grandes dificuldades de manejo e falhas constantes na brotação.

Qual é o intervalo de segurança para aplicar indutores após o uso de fungicidas?

É fundamental respeitar um intervalo de pelo menos 30 dias entre a aplicação de produtos à base de cobre, zinco ou enxofre e o uso da cianamida hidrogenada. A mistura ou o resíduo desses elementos químicos em contato com o indutor gera uma substância tóxica que causa fitotoxidez, queimando as gemas da pereira. Seguir esse cronograma é vital para a segurança da planta e para a eficácia do tratamento de quebra de dormência.

Qual o momento ideal e as condições climáticas para aplicar o indutor de brotação?

O momento certo é durante o inchamento das gemas, geralmente de 20 a 30 dias antes da data esperada para a brotação. Para garantir a eficiência, aplique em dias com temperaturas acima de 20 °C e evite períodos com previsão de chuva em menos de uma hora após a aplicação. Temperaturas abaixo de 10 °C no momento da aplicação reduzem drasticamente a ação do produto, atrasando o desenvolvimento do pomar.

Existem alternativas para o manejo da dormência na produção orgânica?

Sim, produtores orgânicos podem utilizar a mistura de óleo mineral com calda sulfocálcica para estimular a planta. Embora essa combinação tenha uma eficiência menor nas gemas laterais quando comparada aos produtos sintéticos, ela cumpre o papel de quebra de dormência. Nesses casos, o sucesso depende de um manejo de poda e arqueamento de ramos ainda mais detalhado para compensar a menor potência química.

Como o arqueamento de ramos auxilia no desenvolvimento da pereira?

O arqueamento consiste em envergar os ramos da planta para reduzir a dominância apical, que é a tendência da planta de crescer apenas pelas pontas. Essa técnica ’engana’ a pereira, facilitando a brotação das gemas laterais mesmo que o acúmulo de frio não tenha sido perfeito. É uma estratégia de manejo físico valiosa que diminui a dependência exclusiva de indutores químicos e ajuda na formação de uma copa mais produtiva.

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