Índice
- O que causa a ferrugem asiática da soja?
- Como identificar ferrugem asiática? Sintomas e sinais de alerta
- Casos de ferrugem asiática na safra 2025/26
- 6 dicas para combater a ferrugem asiática da soja
- Glossário
A ferrugem asiática é uma das doenças da soja mais devastadoras no Brasil. Sem o manejo correto, ela pode derrubar a produtividade da lavoura de 10% a até 90%.
Os custos para controlar a doença podem ser altos, principalmente quando você não utiliza estratégias integradas e um monitoramento constante.
Para proteger sua safra e seu investimento, é importante entender o comportamento do fungo e aplicar as táticas de manejo mais eficazes.
O que causa a ferrugem asiática da soja?
A ferrugem asiática da soja é causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, um dos patógenos mais agressivos da cultura.
Esse fungo só sobrevive e se multiplica em plantas vivas, o que favorece sua rápida disseminação em lavouras em desenvolvimento.
A doença pode surgir em qualquer estádio da cultura, desde o vegetativo até o reprodutivo.
Normalmente, os primeiros sintomas aparecem nas folhas mais baixas da planta, conhecidas como baixeiro, onde tem as condições ideais: mais umidade e menos incidência de luz .
A partir desse ponto, se não houver manejo certo, a ferrugem pode avançar para as folhas superiores e comprometer a capacidade fotossintética da planta, resultando em queda de produtividade.
Plantas hospedeiras: Onde o fungo se esconde
O Phakopsora pachyrhizi não ataca apenas a soja. Ele tem uma grande variedade de hospedeiros, dificultando ainda mais o controle.
São cerca de 150 espécies de leguminosas da família Fabaceae que podem abrigar o fungo, incluindo culturas comuns como o feijão e a soja-perene.
Além disso, algumas plantas daninhas também servem como hospedeiras alternativas durante a entressafra, mantendo o fungo vivo no campo.
Por isso, o monitoramento e controle dessas plantas é necessário para evitar que o Phakopsora pachyrhizi sobreviva para a próxima safra.
As principais plantas daninhas que servem de “ponte verde” para a ferrugem são:
- Corda-de-viola (Ipomoea spp.);
- Leiteira (Euphorbia heterophylla);
- Kudzu (Pueraria montana), especialmente na região Sul;
- Beiço-de-boi (Desmodium purpureum), importante no Centro-Oeste e Sul.

Como identificar ferrugem asiática? Sintomas e sinais de alerta
Os sintomas da ferrugem asiática da soja começam nas folhas inferiores e, diferente de ferrugens em outras culturas, a sua cor é mais clara, o que dificulta a visualização no início.
Com isso, o desenvolvimento dos sintomas segue estas etapas:
Início discreto: Pequenos pontos escuros surgem na folha, com pequenas elevações (saliências) na parte de baixo (face inferior);
Evolução visível: Esses pontos ficam castanhos e formam pequenas estruturas parecidas com poros (urédias), que liberam novos esporos no ambiente, espalhados principalmente pelo vento;
Confirmação tátil: Os esporos ficam bege ou alaranjados e já podem ser sentidos ao toque e vistos com o auxílio de uma lupa de bolso.
As folhas infectadas tendem a ficar mais escuras que as sadias, com uma coloração que varia de verde-acinzentado no início para castanho-escuro com o avanço da doença.
Atenção: Se você notar que as folhas estão ficando amareladas com pontos castanho-claros, a ferrugem provavelmente já está instalada na lavoura há mais de 30 dias.
Esse tempo avançado dificulta a eficácia do controle químico e aumenta significativamente os prejuízos.
Quando a doença atinge uma alta densidade de lesões, as folhas amarelam e caem prematuramente (desfolha), prejudicando a formação, o enchimento das vagens, a qualidade e o peso dos grãos.
Isso ocorre porque a doença é causada por uma população de patógenos capaz de gerar novas populações ao longo do mesmo ciclo da cultura, o que acelera a evolução dos danos.
Por isso, o controle químico precisa ser realizado no momento correto, quando a população do fungo ainda está baixa.
Aplicações tardias aumentam o risco de “escapes” e favorecem a seleção de fungos resistentes aos fungicidas.
Depois de identificar a ferrugem, o próximo passo é garantir que a aplicação do fungicida seja feita de forma correta, evitando desperdícios e falhas no controle.

Como a ferrugem asiática chegou ao Brasil?
A ferrugem asiática da soja chegou ao Brasil no início dos anos 2000, sendo confirmada oficialmente na safra 2001/2002.
Na época, a introdução da doença aconteceu pela disseminação de esporos do fungo pelo vento, vindos de países vizinhos da América do Sul.
As regiões afetadas foram os estados do Paraná, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, devido aos esporos leves do Phakopsora pachyrhizi que conseguem percorrer longas distâncias.
Desde sua introdução, a ferrugem passou a causar grandes impactos na agricultura brasileira, sendo considerada uma das doenças mais perigosas da sojicultura, implicando em:
- Redução da produtividade em áreas sem manejo adequado;
- Aumento dos custos com fungicidas e operações de aplicação;
- Maior complexidade no manejo da cultura ao longo da safra.
Ao longo dos anos, é estimado que a doença tenha causado prejuízos de bilhões de reais, somando perdas de produção e custos de controle, o que reforça a importância do monitoramento constante e do manejo correto.
Casos de ferrugem asiática na safra 2025/26
Casos de ferrugem asiática foram confirmados na safra 2025/26, confirmados em diferentes regiões do Brasil.
O primeiro foco desta safra foi no início de dezembro de 2025, em uma lavoura de soja no município de Sete Quedas, no Mato Grosso do Sul.
A área estava no estádio fenológico R5 quando a ocorrência foi registrada pelo Consórcio Antiferrugem. As condições de calor e alta umidade da região favoreceram a disseminação dos esporos, que se propagam principalmente pelo vento.
Em monitoramento mais amplo, o próprio Consórcio Antiferrugem divulgou vários focos confirmados no país, com registros iniciais concentrados no Paraná, e em menores em Mato Grosso do Sul e São Paulo.
Além disso, no início de 2025 foram registrados focos da doença em outras regiões, como na Bahia, onde foi identificado o primeiro caso de ferrugem em lavouras no núcleo produtor de Correntina.
Com isso, é comprovado que a doença também se manifesta em áreas de menor tradição sojeira e merece atenção dos produtores.
O cenário de 2025 reforça dois pontos importantes para os produtores:
- A ferrugem asiática permanece presente e ativa, com registros confirmados em lavouras comerciais e monitoração contínua em diferentes estados;
- O clima e o manejo influenciam diretamente a evolução dos focos, já que condições de calor e umidade facilitam o desenvolvimento do fungo.
Esse cenário reforça a necessidade de acompanhar a lavoura desde o início do ciclo, aplicar fungicidas no momento certo e adotar práticas de manejo que reduzam a pressão da doença ao longo da safra.
https://www.youtube.com/watch?v=z8gpq_hR0Uw
Ciclo da ferrugem asiática da soja: Condições ideais para se espalhar
Os esporos da ferrugem são transportados de um lugar para outro principalmente pelo vento, podendo percorrer longas distâncias: até 3 metros por dia e impressionantes 96 quilômetros por semana.
Plantas voluntárias de soja (tiguera) e outras plantas hospedeiras são a principal fonte de inóculo – ou seja, a fonte do fungo que inicia a doença – para os novos plantios de soja.
Para que o fungo consiga infectar a planta, algumas condições climáticas são necessárias:
- Água na folha: É preciso ter água livre sobre a superfície da folha por um período mínimo de seis horas;
- Temperatura ideal: A faixa de temperatura mais favorável para a infecção fica entre 15°C e 25°C;
- Chuvas: Períodos chuvosos favorecem a doença, pois mantêm as folhas úmidas por mais tempo.
Em temperaturas mais amenas (abaixo de 10°C) ou mais quentes (acima de 27°C), o fungo precisa de um período maior de molhamento foliar, cerca de oito horas, para conseguir infectar.
Embora os sintomas possam aparecer em qualquer fase da soja, a maior incidência ocorre a partir do fechamento das entrelinhas.
Isso acontece porque, quando as plantas crescem e suas folhas se tocam, criam um microclima com mais umidade e sombra, protegendo os esporos da radiação solar e favorecendo o desenvolvimento da doença.
Além disso, o estresse hídrico (falta de água para a planta) pode intensificar os danos causados pela ferrugem na lavoura.
6 dicas para combater a ferrugem asiática da soja
A ferrugem asiática é uma doença que evolui rápido e não dá margem para erros. Pequenas falhas no manejo podem resultar em grandes perdas ao longo da safra.
Por isso, reunimos algumas dicas que vão ajudar a antecipar à doença, agir no momento certo e reduzir os impactos na lavoura.
1. Vazio Sanitário
O vazio sanitário é a prática mais importante para quebrar o ciclo da ferrugem. Consiste em um período mínimo de 90 dias sem plantas de soja vivas no campo, sejam elas cultivadas ou voluntárias (tiguera).
Como o fungo só sobrevive em plantas hospedeiras vivas, o vazio sanitário reduz drasticamente a quantidade de esporos no ambiente.
O resultado é um atraso na chegada da doença na safra seguinte, o que pode diminuir a necessidade de aplicações de fungicidas e, consequentemente, reduzir a pressão de seleção de fungos resistentes.
2. Cultivares precoces e calendarização da semeadura
Plantar a soja logo no início da época recomendada é uma estratégia eficaz para “fugir” do pico de pressão da doença.
Essa prática, conhecida como calendarização da semeadura, estabelece uma data limite para o plantio na safra.
Ao evitar a semeadura tardia, você impede que a sua lavoura receba uma alta carga de inóculo nos estágios iniciais, o que forçaria o desenvolvimento precoce da doença e a necessidade de mais aplicações de fungicidas.
O objetivo é reduzir o número de pulverizações e a seleção de fungos resistentes.
3. Monitoramento de focos na região de cultivo
Monitorar sua lavoura de perto é fundamental para definir o momento certo de agir. Siga estes passos:
- Inspecione o baixeiro: Comece a observação pelas folhas da parte inferior da planta;
- Procure pontos escuros: Verifique a parte de cima (face superior) das folhas em busca de pequenas manchas escuras;
- Use uma lupa: Com uma lupa, observe a parte de baixo (face inferior) da folha. Procure por pequenas saliências, com aspecto de “vulcãozinho”.
Uma ferramenta poderosa é o Consórcio Antiferrugem, que monitora em tempo real os focos da doença em todo o Brasil.
Você pode acessar o mapa para ver onde a doença já foi reportada e registrar ocorrências em sua propriedade, ajudando outros produtores a ficarem em alerta.

4. Controle químico
O controle com fungicidas, como os do grupo da morfolina, pode ser feito de forma preventiva (antes do aparecimento dos sintomas) ou curativa (após a identificação).
A escolha depende do seu monitoramento. Você pode consultar os fungicidas registrados para a ferrugem asiática no sistema Agrofit.
A Embrapa realiza anualmente um estudo sobre a eficiência de fungicidas para o controle da ferrugem.
Esses ensaios cooperativos, realizados nas principais regiões produtoras, podem te ajudar a escolher o melhor produto.
Ao analisar a tabela, observe quais tratamentos apresentam a menor severidade da doença (valores mais baixos no final da tabela) e a maior produtividade.
Atenção à resistência de fungicidas
Já foi confirmada a redução da eficiência de alguns grupos de fungicidas contra a ferrugem, incluindo:
- Carboxamidas;
- Triazóis;
- Estrobilurina (quando usada isoladamente).
Para evitar a seleção de fungos resistentes, siga as recomendações do FRAC (Comitê de Ação à Resistência a Fungicidas do Brasil):
- Estrobilurinas: Aplique sempre em mistura com fungicidas dos grupos dos triazóis, triazolintione e/ou carboxamidas. O controle deve ser preventivo.
- Triazóis e Triazolintione: A associação com estrobilurinas é recomendada;
- Carboxamidas: Devem ser sempre aplicadas em mistura com fungicidas do grupo das estrobilurinas.
5. Cultivares resistentes ou mais tolerantes
O mercado já oferece variedades de soja com tolerância ou resistência à ferrugem asiática. A
Embrapa, em parceria com a Fundação Meridional, lançou cultivares como a BRS 511 e a BRS 539 (esta última também resistente a percevejos).
Essas variedades ajudam a retardar o avanço da doença, mas a oferta ainda é limitada e a adaptação varia conforme a região. Consulte um técnico para saber quais materiais são recomendados para a sua área.
6. Integração de vários métodos para o manejo
O controle químico é uma ferramenta importante, mas não deve ser a única. Para um manejo eficaz e sustentável, você deve integrar diferentes estratégias.
Utilizar várias formas de controle ao mesmo tempo previne a perda de eficiência dos fungicidas e o surgimento de raças de fungos resistentes.
Fique de olho em novas tecnologias, como a “vacina” contra a ferrugem desenvolvida pela Plant Health Care.
O produto, que usa proteínas Harpin para estimular as defesas da planta, já foi aprovado no Brasil e deve estar disponível para tratamento de sementes nas próximas safras, prometendo incrementos de 3 a 5 sacas por hectare.
Checklist para manejo da ferrugem asiática da soja
- Planeje a safra: Elabore um planejamento agrícola bem feito, definindo época de semeadura, cronograma de monitoramento e a rotação de fungicidas com diferentes mecanismos de ação.
- Monitore a lavoura: Faça vistorias regulares, principalmente a partir do fechamento das linhas, observando o baixeiro da planta, onde os primeiros sintomas surgem.
- Atenção às condições climáticas: Períodos de alta umidade, presença de orvalho e temperaturas amenas favorecem o desenvolvimento da ferrugem e exigem atenção.
- Inicie o controle no momento correto: Aplique fungicidas de forma preventiva ou no início da doença, evitando aplicações tardias, que reduzem a eficiência do controle.
- Use produtos e doses adequadas: Respeite as recomendações técnicas de dose, volume de calda e intervalo entre aplicações.
- Alterne mecanismos de ação: Evite o uso repetido de fungicidas com o mesmo modo de ação ao longo da safra, diminuindo a pressão de seleção de fungos resistentes.
- Respeite o vazio sanitário: Elimine plantas voluntárias e cumpra o período de vazio sanitário, reduzindo a sobrevivência do fungo entre safras.
- Registre as operações: Anote datas, produtos utilizados, doses e condições de aplicação para melhorar a tomada de decisão e o planejamento das próximas safras.

Glossário
Baixeiro: Parte inferior da planta de soja, composta pelas folhas mais próximas do solo. É onde os primeiros sintomas da ferrugem asiática costumam aparecer devido à maior umidade e menor incidência de luz.
Calendarização da semeadura: Estratégia de manejo que define uma data limite para o plantio da soja, evitando semeaduras tardias que expõem a lavoura a maior pressão de doenças como a ferrugem asiática.
Cultivar: Variedade de planta geneticamente selecionada e desenvolvida para apresentar características específicas, como resistência a doenças, maior produtividade ou adaptação a determinadas regiões.
Esporos: Estruturas reprodutivas microscópicas produzidas pelo fungo da ferrugem. São transportados pelo vento e, ao pousar em folhas de soja com condições favoráveis, iniciam uma nova infecção.
FRAC (Comitê de Ação à Resistência a Fungicidas): Organização internacional que classifica os fungicidas por mecanismo de ação e fornece diretrizes para evitar o desenvolvimento de resistência em fungos.
Fungicida multissítio: Tipo de fungicida que atua em múltiplos processos biológicos do fungo simultaneamente, dificultando o desenvolvimento de resistência. Exemplo: mancozebe.
Inóculo: Conjunto de estruturas do patógeno (como esporos) capazes de iniciar uma infecção. Quanto maior a quantidade de inóculo no ambiente, maior a pressão de doença sobre a lavoura.
Molhamento foliar: Presença de água líquida (orvalho, chuva ou irrigação) sobre a superfície das folhas. É uma condição essencial para que os esporos da ferrugem consigam germinar e infectar a planta.
Phakopsora pachyrhizi: Nome científico do fungo causador da ferrugem asiática da soja. É um patógeno biotrófico, ou seja, só sobrevive em plantas vivas.
Tiguera (planta voluntária): Plantas de soja que nascem espontaneamente no campo a partir de grãos perdidos na colheita anterior. Servem como “ponte verde” para a sobrevivência do fungo entre safras.
Urédias: Estruturas reprodutivas do fungo da ferrugem, visíveis como pequenas saliências na face inferior das folhas. São responsáveis pela liberação de esporos que espalham a doença.
Vazio sanitário: Período obrigatório, geralmente de 90 dias, em que não pode haver plantas de soja vivas no campo. Visa eliminar as fontes de inóculo do fungo da ferrugem e atrasar sua chegada na safra seguinte.

