Lucratividade da Soja: Por Que Sua Margem Caiu (e o Que Fazer Agora)

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Engenheiro Agrônomo (UFRGS, Kansas State) e especialista de Novos Negócios
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Na safra 20/21, de cada R$ 100 em soja vendida, o produtor levava R$ 47 para casa. Três safras depois, em 23/24, esse número despencou para R$ 11. A conta não fecha mais do mesmo jeito, e quem está sentindo isso no bolso sabe que não é só o preço da saca que mudou.

O custo operacional quase dobrou desde 2018. O crédito ficou caro. E a janela de erro encolheu tanto que uma decisão ruim de compra de insumo pode comer metade da sua margem. Mas aqui vai o dado que muda a conversa: segundo dados de mais de 10.000 fazendas gerenciadas pela Aegro, as propriedades mais rentáveis do Brasil não são necessariamente as que produzem mais. São as que controlam melhor o tripé preço, custo e produtividade.

Vamos direto ao que interessa: os números reais de cada safra, o que explica essa montanha-russa de lucratividade e como ler o cenário para tomar decisões melhores em 26/27.

Índice

A montanha-russa da lucratividade: 2018 a 2026

Se alguém te dissesse em 2021 que dali a três anos a lucratividade média da soja cairia de 47% para 11%, você provavelmente não acreditaria. Mas é isso que os dados mostram.

A tabela abaixo resume a lucratividade média Brasil safra a safra. Os dados são reais, baseados em notas fiscais e informações gerenciais de milhares de fazendas que usam o Aegro. Não são estimativas.

SafraMargem por hectareLucratividade (%)O que marcou o ano
19/20R$ 849 a R$ 1.67414% a 32%Variação grande entre regiões
20/21R$ 3.500+47%Preço disparou, insumos ainda baratos
21/22R$ 3.595AltaPreço alto, mas custos começaram a subir
22/23R$ 1.708Queda pela metadeCusto no pico (R$ 6.500+/ha), preço caiu
23/24R$ 74311%Pior safra: 3ª menor produtividade + custos altos
24/25Dobro de 23/24RecuperaçãoProdutividade +12%, custo -5%
25/26 (est.)~R$ 2.000~15%66 sacas, preço a R$ 115

A amplitude entre a melhor e a pior safra é de 36 pontos percentuais de lucratividade. Em hectares, isso significa a diferença entre sobrar R$ 5.500 ou perder R$ 400.

O que essa tabela não mostra sozinha é o porquê de cada número. E é aí que a coisa fica interessante: a safra com maior produtividade não foi a mais lucrativa. O ano com preço mais alto também não.

Leia sobre: Custo de produção por hectare: guia prático para controlar

Produzir mais nem sempre é lucrar mais

Essa é a frase que mais incomoda, mas os dados confirmam. As safras 24/25 e 25/26 tiveram as melhores produtividades da série histórica: o Brasil está colhendo mais soja por hectare do que nunca. O investimento em tecnologia está dando resultado, e o país lidera a produção de soja no mundo em termos de tecnologia aplicada.

Só que produtividade alta com preço baixo e custo alto dá empate. Ou pior: dá prejuízo.

O que determina o lucro no final da safra é a combinação de três variáveis ao mesmo tempo: o preço de venda da saca, o custo operacional por hectare e a produtividade. É o que chamamos de tripé da lucratividade. Mexeu em um, muda o resultado dos outros.

Na safra 22/23, por exemplo, a produtividade média foi de 63 sacas: maior que em 20/21 e 21/22. Mas a lucratividade caiu pela metade. O motivo? O custo operacional bateu no pico histórico (acima de R$ 6.500 por hectare) enquanto o preço da saca recuava para R$ 127.

O tripé na prática

Pense assim: se o custo para produzir uma saca de soja está em 45 sacas por hectare (a média real dos últimos 4 anos segundo os dados da Aegro) e você colhe 58, sobraram 13 sacas. Parece bom. Mas se o preço caiu 15% entre a hora que você planejou e a hora que vendeu, essas 13 sacas encolheram em valor. E se o custo subiu 10% porque você comprou insumo na janela errada, a margem de 13 sacas virou 8.

Cada decisão move o ponteiro. É por isso que o produtor que só olha para produtividade está vendo um terço do filme.

Leia sobre: Gestão de custos na fazenda: por onde começar | Rentabilidade na lavoura: como medir e melhorar

O que aconteceu com o preço da soja

Até 2018, o produtor brasileiro trabalhava com soja na faixa de R$ 60 a R$ 90 a saca. Preço previsível, margem apertada, mas conhecida. Depois da pandemia, tudo mudou.

A soja passou de R$ 100 pela primeira vez e não voltou. O pico veio em 21/22, com média de R$ 164 a saca. Em algumas regiões, passou de R$ 180. Foi a combinação de demanda global, câmbio favorável e restrição de oferta.

Desde então, o preço vem recuando: R$ 127 em 22/23, R$ 117 em 23/24, e uma estimativa de R$ 115 para 25/26. Quem fez travas e barters entre maio e julho do ano passado conseguiu travar a R$ 132, R$ 135. Quem esperou até janeiro encontrou R$ 105, R$ 106 em algumas praças.

A amplitude do mercado em uma mesma safra está variando cerca de 30%. Isso significa que a decisão de quando vender pode representar mais de R$ 25 por saca de diferença.

Dispersão de preço entre estados

A logística muda tudo. Na safra 24/25, a média de preço da saca em Mato Grosso foi de R$ 111, enquanto no Rio Grande do Sul chegou a R$ 129. São R$ 18 de diferença por saca, basicamente por causa do frete até o porto.

EstadoPreço médio da saca (24/25)Motivo
Mato GrossoR$ 111Maior distância até o porto
Rio Grande do SulR$ 129Logística mais curta e facilitada

Essa dispersão de preço entre regiões é permanente. Ela não desaparece em anos bons nem piora necessariamente em anos ruins. É estrutural. E precisa entrar na conta quando você compara sua lucratividade com a média Brasil.

Leia sobre: Impostos sobre a venda de soja: saiba quais são os principais | Mercado futuro da soja: como funciona

Custos: o número que quase dobrou

Se o preço da soja é o que todo mundo acompanha, o custo operacional é o que separa quem lucra de quem empata. E aqui o cenário é claro: de 2018 para cá, o custo operacional médio cresceu 93%. Quase dobrou.

O pico foi em 22/23, logo depois da euforia de preços. Quando a soja bateu R$ 164, o mercado de insumos puxou tudo para cima: fertilizante, defensivo, frete. A lógica é simples: se o produtor está ganhando mais, o fornecedor cobra mais. O problema é que o preço da soja caiu, e o custo dos insumos não acompanhou na mesma velocidade. Do pico até hoje, a queda foi de apenas 20%.

O custo operacional médio no Brasil na safra 24/25 foi de R$ 5.249 por hectare. Esse número inclui insumo, mão de obra, despesas diversas, taxas e impostos. Não inclui depreciação de máquina nem arrendamento.

EstadoCusto operacional/ha (24/25)
Brasil (média)R$ 5.249
Minas GeraisR$ 6.000 (mais alto)
Rio Grande do SulR$ 4.500 (mais baixo)

Em sacas, o custo médio dos últimos 4 anos ficou em 45,5 sacas por hectare. Esse número é a referência para você comparar com a sua operação. Se o seu custo está acima disso sem uma justificativa clara (como investimento em tecnologia com retorno comprovado), tem dinheiro ficando na mesa.

Margem bruta vs. produtividade

A melhor margem bruta por hectare foi de R$ 3.595 em 21/22. A pior, R$ 743 em 23/24. A safra 23/24 foi a tempestade perfeita ao contrário: terceira menor produtividade em sete anos, segundo custo mais alto da série e preço de venda em queda.

Quando os preços subiram em 21/22, os insumos acompanharam. Mas quando os preços caíram, os insumos ficaram inflados por mais tempo. Sobrou estoque no canal de distribuição, e o ajuste demorou. Essa assimetria é o que mais pressiona a margem do produtor.

Ponto de equilíbrio: quantas sacas você precisa colher

Na safra 24/25, o ponto de equilíbrio médio foi de 44 sacas por hectare. Ou seja: com 44 sacas, o produtor pagava todos os custos operacionais (sem arrendamento). Cada saca acima disso era lucro.

Com a produtividade média de 58 sacas, sobraram 14 sacas. Parece confortável. Mas existe um dado que pouca gente fala: os dados da Aegro mostram que cerca de 7 sacas se perdem em ineficiências de processo, falta de controle administrativo e decisões de compra fora do timing. É dinheiro que fica na mesa por falta de gestão, não por falta de tecnologia no campo.

O ponto de equilíbrio muda a cada safra porque depende do custo e do preço de venda. Na prática, o produtor precisa recalcular essa conta todo ano, antes de fechar o pacote tecnológico. Quem entra na safra sem saber quantas sacas precisa colher para pagar as contas está voando no escuro.

Como ler o cenário e decidir na safra 26/27

Cada safra tem uma tendência diferente, e a decisão de investir mais ou cortar depende de entender para onde os vetores estão apontando. A lógica é simples quando você organiza em quadrantes:

Tendência de custosTendência de preçoO que fazer
SubindoEstável ou caindoPisar no freio, revisar pacotes, cortar o que não tem retorno comprovado
SubindoSubindoInvestir com cautela, travar margens
Estável ou caindoSubindoInvestir mais, aproveitar a relação de troca
CaindoSubindoAno ideal: investir forte, vai ter retorno

Para a safra 26/27, o cenário que se desenha é: preço da soja estável (tendência lateral) e custos subindo, puxados por fertilizantes, defensivos e frete. Acompanhe as tendências em mercado de commodities. Segundo a análise apresentada no Aegro Day, é um ano para pisar no freio e esperar o momento certo para cada decisão de compra.

O que o clima adiciona à equação

Além do tripé preço-custo-produtividade, o fator climático (El Niño, La Niña) pode jogar os planos para baixo em qualquer cenário. Para quem não tem estratégias de resiliência hídrica, a variável clima transforma o planejamento de safra em aposta. Considere também o seguro agrícola da soja como proteção para anos de volatilidade climática. É mais uma razão para não esticar demais o investimento em anos incertos.

Projeção para 25/26

CenárioProdutividadePreço médioCusto operacionalLucratividade
Base66 sacasR$ 115R$ 5.300~15%
OtimistaAcima de 66R$ 125Acima de 15%

A estimativa de 15% de lucratividade pode parecer razoável comparada ao fundo do poço de 23/24, mas está longe dos 47% que o setor viveu em 20/21. O novo normal é margem apertada, e quem não ajustar a gestão para esse cenário vai continuar sendo espremido safra após safra.

Com esses números na mão, a decisão de onde cortar e onde investir fica mais clara. Mas só se você tiver os dados da sua fazenda organizados para comparar.

Glossário

Veja como o Aegro pode ajudar a superar esses desafios

Acompanhar lucratividade safra a safra com planilha dá trabalho, atrasa e abre margem para erro. Você precisa consolidar notas fiscais, ratear custos por talhão, comparar safras e ainda calcular ponto de equilíbrio. No meio do dia a dia da fazenda, essa conta acaba ficando para depois.

No Aegro, cada lançamento de custo e cada venda registrada alimentam automaticamente o cálculo de lucratividade por talhão, por safra e por cultura. Você vê a margem atualizada sem precisar montar planilha. E com o Aegro Insights, dá para comparar seus números com a média da sua região, identificar onde está acima ou abaixo e ajustar antes que a safra acabe.

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Perguntas frequentes

Qual foi a lucratividade média da soja na safra 24/25?

A lucratividade média ficou em torno de 27% considerando as fazendas com dados completos na base da Aegro. Esse número considera receita menos custos operacionais, sem arrendamento. A recuperação em relação à safra 23/24 (11%) veio da combinação de produtividade 12% maior e custos 5% menores.

Por que a safra 23/24 foi a pior em lucratividade?

Três fatores juntos: a produtividade foi a terceira mais baixa em sete anos, o custo operacional foi o segundo mais alto da série (R$ 5.500/ha) e o preço da saca caiu para R$ 117. Foi a combinação mais desfavorável possível do tripé preço-custo-produtividade.

Qual o custo operacional médio por hectare de soja no Brasil hoje?

Na safra 24/25, o custo médio ficou em R$ 5.249 por hectare. Esse valor inclui insumos, mão de obra, taxas e impostos, mas não inclui arrendamento nem depreciação de máquinas. O custo varia bastante por estado: Minas Gerais fica próximo de R$ 6.000 e Rio Grande do Sul em torno de R$ 4.500.

Quantas sacas por hectare preciso colher para não ter prejuízo?

Na safra 24/25, o ponto de equilíbrio médio foi de 44 sacas por hectare. Esse número muda a cada safra porque depende do custo dos insumos e do preço da saca. O cálculo correto exige que você tenha o custo operacional da sua fazenda atualizado, e não apenas a média Brasil.

É verdade que produzir mais soja não garante mais lucro?

Sim. A safra 22/23 teve produtividade de 63 sacas (acima de 20/21 e 21/22), mas a lucratividade caiu pela metade porque o custo operacional bateu recorde. Produtividade alta com custo alto e preço em queda pode resultar em margem menor do que uma safra com menos sacas, custo controlado e preço melhor.

O que muda no cenário para quem produz soja no Mato Grosso comparado ao Rio Grande do Sul?

O preço pago pela saca em Mato Grosso é historicamente R$ 15 a R$ 20 menor que no Rio Grande do Sul por causa do custo logístico até o porto. Na safra 24/25, a diferença foi de R$ 111 contra R$ 129 por saca. Em compensação, o custo operacional no RS tende a ser menor. O resultado líquido depende da produtividade de cada região e da eficiência de cada fazenda, por isso é importante comparar com dados regionalizados, não com a média Brasil.