Em dois anos de análise, cobrindo pelo menos seis safras entre 2023 e 2025, o preço do Trichoderma harzianum recuou de R$ 30 para R$ 20 por hectare (–32%), o da Isaria fumosorosea de R$ 59 para R$ 46 (–22%) e o do Bacillus amyloliquefaciens de R$ 46 para R$ 37 (–20%). Esses números são da base do Aegro Index e mostram um mercado de biológicos de proteção de cultivos que amadureceu rápido.
O crescimento do setor já era esperado. O que os dados mostram com mais precisão é o que acontece quando um mercado sai da fase inicial: mais players, mais SKUs, queda consistente de preço e mudança na lógica de compra do produtor. Esse movimento não é pontual nem restrito a uma única classe. É estrutural.
Entender onde esse mercado está e para onde vai exige uma leitura que vai além dos números de crescimento agregados. Exige dado real de campo, por safra, por região, por classe de produto. É o que esta análise traz.
Neste artigo
- O que o Aegro Index analisou
- O ambiente regulatório que acelerou o mercado
- A multifuncionalidade que diferencia os biológicos
- Queda de preço consistente nas três classes
- Por que os preços estão caindo
- Adoção cresce e uso combinado avança
- O que o amadurecimento muda para a indústria
- Conclusão
- FAQ
O que o Aegro Index analisou
A análise cobre o período de 2023 a 2025, com recorte em pelo menos seis safras. Três organismos foram acompanhados: Trichoderma harzianum (biofungicida), Isaria fumosorosea (bioinseticida, atualmente reclassificado como Cordyceps fumosorosea) e Bacillus amyloliquefaciens (bionematicida).
A escolha dos três não é arbitrária. Eles estão entre os organismos mais consolidados no campo, com histórico de adoção e precificação suficiente para leitura de tendência ao longo de safras. Segundo estudos do setor, o grupo dos Bacillus spp. já cobre cerca de um quarto da área protegida no Brasil, enquanto o Trichoderma spp. responde por quase 20%.
Para cada classe, o Aegro Index acompanha os valores por hectare ao longo das safras, o volume transacionado e o número de SKUs ativos na base. Essa combinação permite identificar não apenas o preço médio de mercado, mas o comportamento de adoção real dentro das fazendas.
Preço por hectare (R$/ha) das três classes biológicas entre 2023 e 2025. Fonte: Aegro Index.
O ambiente regulatório que acelerou o mercado
Um dos fatores que sustentam a entrada acelerada de novos produtos é o ambiente regulatório. Segundo estudos do setor, o registro de bioprotetores é aprovado em média em 14 meses, um ritmo quase cinco vezes mais rápido do que o dos defensivos químicos convencionais.
Essa diferença de velocidade tem impacto direto na competição. Enquanto um defensivo químico leva anos para percorrer o processo de registro, um bioproduto pode chegar às prateleiras em menos de dois anos. Para a indústria, isso significa que o ciclo de lançamento de portfólio é mais curto. Para o mercado, significa mais opções chegando mais rápido, o que acelera a pressão sobre os preços dos organismos já estabelecidos.
O resultado prático aparece na base do Aegro Index: o número de SKUs disponíveis nas três classes analisadas passou de 75 para 108 em dois anos.
A multifuncionalidade que diferencia os biológicos
Uma das diferenças centrais entre os biológicos e os defensivos químicos convencionais está na multifuncionalidade. Um defensivo químico, em geral, tem uma única função. Um organismo biológico pode cobrir dois ou mais aspectos da produção em uma única aplicação.
O Bacillus amyloliquefaciens é o exemplo mais claro entre os organismos analisados. Além de atuar como bionematicida, controlando nematoides no solo, também é promotor de crescimento vegetal e tem ação fungicida e bactericida. O produtor adquire um produto e obtém mais de uma resposta agronômica.
Essa característica tem peso crescente na decisão de adoção. Com os problemas de resistência aos defensivos químicos se tornando mais frequentes, a multifuncionalidade dos biológicos aparece como argumento técnico concreto. O produtor que incorpora biológicos ao manejo não está necessariamente substituindo o químico: está cobrindo funções que o químico, por resistência ou por limitação de registro, já não cobre com a mesma eficácia.
Queda de preço consistente nas três classes
Em dois anos, a deflação foi consistente nos três organismos analisados, segundo a base do Aegro Index. Não é queda pontual de uma safra para a outra: é uma curva descendente que se manteve ao longo de todo o período, trimestre a trimestre.
Essa consistência é relevante porque afasta a leitura de que a queda é resultado de um evento específico, como uma safra ruim ou variação pontual de oferta. O que os dados mostram é uma mudança estrutural na precificação das classes mais estabelecidas do mercado de biológicos.
Evolução trimestral do preço por hectare (R$/ha) nas três classes biológicas de 1T23 a 4T25. Fonte: Aegro Index.
Trichoderma harzianum (biofungicida)
O T. harzianum registrou a maior queda percentual: de R$ 30 para R$ 20 por hectare entre 2023 e 2025, uma redução de 32%. O organismo é o mais estabelecido dos três e, por isso, o que mais acumulou pressão competitiva ao longo do tempo. Quanto mais consolidado o produto no campo, mais players entram para disputar o mesmo mercado e mais rápido o preço converge para baixo.
Isaria fumosorosea (bioinseticida)
A I. fumosorosea, atualmente reclassificada como Cordyceps fumosorosea, saiu de R$ 59 para R$ 46 por hectare, uma queda de 22%. O organismo é usado principalmente para controle de insetos-praga como moscas-brancas e tripes. A queda percentual menor do que a do T. harzianum reflete um nível de competição ainda inferior nessa classe, mas a tendência de deflação está presente e segue a mesma direção.
Bacillus amyloliquefaciens (bionematicida)
O B. amyloliquefaciens recuou de R$ 46 para R$ 37 por hectare, uma queda de 20%. O dado trimestral mostra que o organismo chegou a R$ 35 em 2024 e teve leve recuperação em 2025, o que pode refletir uma demanda mais estável sustentada pela sua multifuncionalidade. Ainda assim, a trajetória de dois anos é claramente descendente.
Por que os preços estão caindo
A deflação nas três classes não tem uma causa isolada. É resultado da combinação de três fatores identificados na base do Aegro Index.
Entrada das gigantes do setor químico
Nos últimos dois anos, as grandes empresas de defensivos químicos entraram no mercado de biológicos com investimentos altos. Antes, o segmento era ocupado principalmente por empresas especializadas. Hoje, as mesmas companhias que dominam o mercado de fungicidas, inseticidas e nematicidas químicos disputam espaço com portfólio biológico próprio.
Essas empresas chegam com capacidade de produção em escala, redes de distribuição já estabelecidas e poder de negociação com o canal. Para as especializadas, a resposta tem sido reduzir preço para manter volume. O resultado é uma convergência de preços para baixo em toda a classe.
Portfólio expandiu de 75 para 108 SKUs
Na base do Aegro Index, o número de SKUs disponíveis para as três classes analisadas passou de 75 para 108 no período de 2023 a 2025, um crescimento de 44% em dois anos. Mais opções no mercado reduzem o poder de precificação de qualquer produto isolado. O produtor que antes tinha cinco alternativas para controle biológico de um determinado agente passa a ter oito ou dez.
Produção on farm pelo produtor
A possibilidade de o próprio produtor fabricar biológicos na propriedade é outro fator que pressiona o preço de mercado. Com a estabilização do segmento e o acesso crescente à tecnologia de fermentação em escala de fazenda, parte da demanda deixa de passar pelos canais comerciais tradicionais.
A produção on farm ainda representa uma parcela menor do mercado total, mas cria um teto implícito de preço. Quando o custo do produto comercial sobe acima de um determinado patamar, o produtor avalia a viabilidade de produzir internamente.
Adoção cresce e uso combinado avança
Enquanto os preços caíam, a adoção crescia. O uso de duas ou mais classes de biológicos de forma combinada avançou de 36% para 40% das fazendas analisadas entre 2023 e 2025, um crescimento de 4 pontos percentuais, segundo a base do Aegro Index. Dentro desse movimento, o uso de exatamente duas classes passou de 27% para 31%, enquanto o uso de três classes se manteve estável em 9%.
Evolução do uso combinado de classes biológicas entre 2023 e 2025. Fonte: Aegro Index.
O dado indica que o produtor deixou de escolher produtos de forma isolada. A lógica passou a ser de sistema: combinar classes para cobrir mais funções dentro do mesmo manejo. Um Trichoderma para controle fúngico, um Bacillus para nematoides e promoção de crescimento, uma Isaria para insetos. O manejo deixa de ser uma sequência de decisões pontuais e passa a ser um sistema integrado.
Essa mudança tem dois motores. O primeiro é técnico: os problemas de resistência aos defensivos químicos tornam a rotação e a combinação com biológicos cada vez mais necessárias do ponto de vista agronômico. O segundo é econômico: com a queda de preço nas principais classes, o custo de incorporar biológicos ao manejo caiu, o que torna a adoção viável para mais perfis de produtor.
O que o amadurecimento muda para a indústria
O mercado de biológicos passou da fase de adoção inicial para uma fase mais competitiva e estruturada. Crescimento em volume, queda de preço nas classes estabelecidas, expansão de portfólio e entrada de novos players com escala: são os padrões que valem em mercados maduros, e todos estão presentes agora.
Preço perde força como diferencial
Quando o mercado era menor e os players eram poucos, o preço funcionava como alavanca de crescimento. Um produto com custo por hectare mais baixo ganhava mercado com facilidade. Esse cenário não existe mais nas três classes analisadas.
Com preços convergindo para baixo em toda a classe, a diferença entre o produto mais barato e o mais caro dentro de uma mesma categoria diminuiu. O T. harzianum saindo de R$ 30 para R$ 20 em dois anos não é um mercado onde a guerra de preço ainda cria vantagem sustentável. Competir apenas por preço passa a ser uma estratégia de margem decrescente.
A decisão passou a ser pelo manejo
Se o preço perdeu força, o que passa a determinar a escolha do produto é a capacidade de encaixe dentro do sistema de manejo do produtor.
O produtor que usa biológicos de forma combinada não decide mais por um produto isolado. Ele decide por um sistema. Esse sistema precisa fazer sentido agronômico, ter compatibilidade entre as classes e encaixar no calendário de aplicações. A empresa que consegue demonstrar esse encaixe com dado real de campo, e não apenas com bula e ensaio controlado, tem vantagem competitiva.
Novos organismos seguem trajetória diferente
A deflação observada nas três classes analisadas é característica de organismos bem estabelecidos no mercado. T. harzianum, I. fumosorosea e B. amyloliquefaciens estão entre os mais estudados e conhecidos em campo. A correlação entre o grau de estabelecimento do mercado e a queda de precificação é clara nos dados.
Para organismos mais novos, com menor histórico de campo ou que resolvem problemas específicos sem concorrentes diretos, a trajetória pode ser diferente. Um organismo que ainda sustenta diferenciação técnica clara mantém preço e margem. Esse é um dado estratégico para decisões de portfólio: onde investir em registro e desenvolvimento para os próximos ciclos.
Conclusão
A queda de preço do T. harzianum (–32%), da I. fumosorosea (–22%) e do B. amyloliquefaciens (–20%) em dois anos não é sinal de enfraquecimento do mercado de biológicos. É sinal de amadurecimento.
O setor cresceu em penetração, em portfólio (de 75 para 108 SKUs na base Aegro Index) e em complexidade, com o uso combinado de classes passando de 36% para 40% das fazendas no período. O ambiente regulatório mais ágil acelera a entrada de novos produtos. As grandes empresas do setor químico chegaram com investimento pesado. A produção on farm cria pressão sobre o preço nas classes mais acessíveis.
Para quem atua nesse mercado, acompanhar apenas o crescimento agregado não é suficiente. O que importa é entender como esse crescimento se distribui: em quais classes, com qual trajetória de preço, em qual volume e em quais combinações de manejo. Essa leitura exige dado real de campo, por safra e por região. É o que o Aegro Index entrega.
FAQ
O que é o Aegro Index e como ele analisa o mercado de biológicos no Brasil?
O Aegro Index é a base de inteligência de mercado da Aegro, construída a partir de dados reais de campo registrados por produtores no sistema. A análise cobre comportamentos de preço, adoção de insumos, volume transacionado e métricas de manejo, com recorte por safra, região e classe de produto.
Quais são os biológicos de proteção de cultivos mais utilizados na agricultura brasileira?
Três organismos: Trichoderma harzianum (biofungicida), Isaria fumosorosea (bioinseticida, atualmente reclassificado como Cordyceps fumosorosea) e Bacillus amyloliquefaciens (bionematicida). Os três foram escolhidos por serem os mais consolidados no mercado nacional de controle biológico, com histórico de adoção e precificação que permite leitura de tendência ao longo de safras.
Por que o preço dos defensivos biológicos está caindo no Brasil?
Três fatores explicam a queda: a entrada de grandes empresas do setor químico no mercado de biológicos, a expansão do portfólio disponível (de 75 para 108 SKUs na base Aegro Index) e a possibilidade de produção on farm pelo próprio produtor. São fatores típicos de mercados que saem da fase de adoção inicial e entram em uma fase mais competitiva.
O uso combinado de biológicos na agricultura brasileira está crescendo?
Sim. O uso de duas ou mais classes de forma combinada passou de 36% para 40% das fazendas analisadas entre 2023 e 2025, um avanço de 4 pontos percentuais, segundo a base do Aegro Index. Esse movimento indica que o produtor passou a construir o manejo como sistema, integrando diferentes organismos para cobrir mais funções dentro da mesma safra.
A queda no preço dos biológicos agrícolas vai continuar em 2025 e 2026?
Os dados do período analisado mostram uma tendência consistente de deflação nas três classes estudadas. Organismos mais estabelecidos e com mais concorrentes diretos tendem a continuar com pressão de preço. Para organismos mais novos ou com menor concorrência, a trajetória pode ser diferente. O Aegro Index acompanha esses movimentos por safra.
Bacillus amyloliquefaciens: para que serve e quais são suas funções agronômicas?
Além de atuar como bionematicida, o B. amyloliquefaciens também é promotor de crescimento vegetal e tem ação fungicida e bactericida. Essa multifuncionalidade é uma das diferenças dos biológicos em relação aos defensivos químicos convencionais, que em geral têm uma única função por produto.
Veja na prática o que o Aegro Index entrega
Os dados desta análise são um recorte do que a base do Aegro Index oferece para indústrias de biológicos e players do setor químico.
Quer acompanhar comportamentos reais de preço, adoção e uso combinado por safra e região? Agende uma demonstração e veja como converter dado real de campo em decisões de portfólio e precificação.

