Como fazer Enxertia de Pêssego: Guia Passo a Passo [2025]

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Índice

Por que plantar o caroço do pêssego quase nunca dá certo?

Você já ouviu aquela história do produtor que guardou os caroços das frutas mais doces do pomar, plantou tudo com carinho e, anos depois, colheu frutas azedas ou pequenas? Pois é, isso acontece muito. O problema não é o manejo, é a genética.

Quando você planta uma semente (o caroço), você está fazendo uma “loteria genética”. É igual a filhos: eles podem parecer com os pais, mas nunca são idênticos. No caso do pêssego, da nectarina e da ameixa, essa variação é ainda maior.

Se você quer um pomar comercial uniforme, onde todas as plantas produzem a mesma fruta, do mesmo tamanho e sabor, esqueça o plantio direto da semente para formar a copa. O segredo aqui é a clonagem, ou seja, a enxertia.

Na prática, a semente serve para outra coisa: fazer o porta-enxerto (a raiz), e olhe lá. Mesmo assim, essas sementes precisam vir de matrizes selecionadas para garantir que o “pé” da planta seja forte.


O Porta-Enxerto: A fundação da sua casa

Imagine construir uma casa em um terreno brejoso sem uma fundação reforçada. Ela vai rachar. O porta-enxerto é a fundação da sua fruteira. Se errar aqui, não adianta adubar a copa depois.

O porta-enxerto (ou “cavalo”) é quem aguenta o tranco. Ele define se a planta vai ser resistente a doenças, se aguenta seca ou encharcamento e até o tamanho final da árvore.

No Brasil, a gente usa muito o Okinawa (principalmente no Sudeste) e o Capdeboscq (no Sul). Mas fique atento:

  • Para solos encharcados: Pessegueiro sofre muito. Nesses casos, híbridos ou porta-enxertos de ameixeira (como alguns usados na Europa) aguentam mais água no pé.
  • Vigor: Tem porta-enxerto que faz a planta crescer demais e outros que seguram o crescimento (ananesntes), facilitando a colheita. O ‘Sharpe’, por exemplo, diminui o tamanho da planta, mas tem pegado mal na enxertia no viveiro.

⚠️ ATENÇÃO: O porta-enxerto muda a fruta! Ele pode influenciar o tamanho, a cor, a doçura (Brix) e até a época de colheita. Não compre qualquer muda sem saber o que tem embaixo da terra.


O passo a passo da produção da muda enxertada

Muita gente pergunta: “Quanto tempo leva para a muda ficar pronta?”. Vamos direto ao processo que funciona na maioria dos viveiros comerciais.

  1. Formar o “Pé”: Primeiro, você planta a semente ou a estaca do porta-enxerto.
  2. O Ponto de Enxertia: Quando a haste tiver uns 80 a 100 cm de altura e a grossura de um lápis (8 a 15 mm), está na hora de enxertar. Isso acontece a uns 10-20 cm do chão.
  3. A Enxertia: O método campeão é a borbulhia em “T” invertido. É simples: você insere uma gema (o “olho”) da cultivar boa (copa) no porta-enxerto. Isso é feito geralmente de novembro a janeiro.
  4. Amarrio: Tem que amarrar firme com fita plástica. Se entrar água ou ar, o enxerto morre.
  5. A “Forçagem”: Aqui vem o pulo do gato. Uns 20 cm acima do enxerto, você quebra a haste do porta-enxerto (sem arrancar) para forçar a seiva a ir para a gema enxertada.
  6. Limpeza: Depois de uns 25 dias, se pegou, você corta fora a parte de cima do porta-enxerto.
  7. Muda Pronta: Quando a planta nova atingir de 70 cm a 1 metro, está pronta para ir para o campo ou ser vendida.

💡 DICA DE QUEM JÁ FEZ: Quando cortar o porta-enxerto acima do enxerto, passe uma pasta cicatrizante no corte. Se deixar aberto e chover, entra fungo e seca a planta de cima para baixo (secamento descendente). Uma mistura caseira de cola branca (PVA) com um pouquinho de fungicida resolve.


Enxertia de ameixa em pêssego: Pode ou não pode?

Você já viu um pomar onde as árvores começam a quebrar bem na emenda do enxerto depois de um vento forte? Ou plantas que ficam amarelas e morrem cedo? Isso chama incompatibilidade. É como um transplante de órgão que o corpo rejeita.

Aqui na lida, o que vemos é o seguinte:

  • Ameixeira sobre Pessegueiro: Geralmente funciona bem. A maioria das mudas de ameixa no Brasil usa porta-enxerto de pessegueiro (como o Okinawa).
  • Pessegueiro sobre Ameixeira: Aí a coisa complica. Muitas vezes dá rejeição.

Outro problema curioso na ameixeira enxertada em pessegueiro é o “franqueamento”. Se você plantar a muda com o enxerto enterrado na terra, a copa (ameixeira) solta raiz própria. Aí ela “esquece” o porta-enxerto e vira uma planta de pé-franco, perdendo as vantagens da raiz que você escolheu.


Mudas sem enxerto (Autoenraizadas): Vale a pena?

Seu Zé, lá de Pelotas, perguntou se não era mais fácil fazer mudas por estaca direto, sem ter esse trabalho todo de enxertar. A resposta é: possível é, mas tem seus desafios.

Mudas autoenraizadas (feitas por estacas ou alporquia) têm vantagens:

  • Ficam prontas mais rápido.
  • Têm um sistema de raiz muito bom, cheio de radicelas.
  • Não tem risco de incompatibilidade (afinal, é uma planta só).

Mas por que quase ninguém faz? Porque exige uma estrutura cara. Precisa de estufas com “nebulização intermitente” (aquele chuvisco automático o dia todo) para a estaca não secar antes de enraizar. Além disso, no campo, ainda faltam estudos para saber se essas plantas aguentam o tranco igual às enxertadas em todas as regiões.

Manejo Integrado de Pragas (MIP)

📊 NÚMEROS QUE IMPORTAM: Com a técnica certa de estaquia (usando hormônio AIB e nebulização), é possível ter mais de 80% de enraizamento. Mas sem essa estrutura, a perda é grande.


Como não comprar gato por lebre?

O maior pesadelo do fruticultor é descobrir, só depois de 3 anos cuidando da planta, que a variedade está errada.

Olhando para a muda pelada (raiz nua), é impossível saber qual porta-enxerto foi usado. Você não consegue diferenciar um ‘Okinawa’ de um ‘Capdeboscq’ só de olho na raiz.

Para não perder dinheiro:

  1. Compre de viveiro registrado: Tem que ter registro no RENASEM.
  2. Exija Nota Fiscal detalhada: A nota tem que dizer qual é a copa E qual é o porta-enxerto. Se der problema no futuro, é sua única garantia.
  3. Desconfie de preço muito baixo: Produzir muda com genética garantida custa dinheiro. O barato sai caro quando você tem que arrancar o pomar inteiro depois.

Glossário

Porta-enxerto (ou Cavalo): Parte inferior da planta composta pelo sistema radicular e a base do tronco, selecionada por sua resistência a pragas e adaptação ao solo. Serve de suporte para a cultivar produtiva que será enxertada sobre ele.

Borbulhia: Método de enxertia que consiste na inserção de uma única gema (borbulha) da planta produtiva em um corte feito no porta-enxerto. No Brasil, o modelo de ‘T invertido’ é muito comum na fruticultura pela facilidade e alto índice de sucesso.

Ananicante: Porta-enxerto que possui a característica genética de reduzir o vigor e o tamanho final da copa da árvore. Facilita o manejo, a colheita e permite o adensamento do pomar, colocando mais plantas por hectare.

Franqueamento: Fenômeno indesejado onde a copa enterrada emite raízes próprias, anulando as vantagens do porta-enxerto escolhido. Isso ocorre geralmente quando o ponto de enxertia fica em contato direto com a terra após o plantio.

Pé-franco: Planta que cresce sobre seu próprio sistema radicular, sem ter sido submetida à enxertia. Embora seja mais simples de produzir, apresenta grande variabilidade genética e falta de padronização nos frutos para fins comerciais.

Grau Brix: Unidade de medida que indica a quantidade de sólidos solúveis, principalmente açúcares, presentes na polpa do fruto. É o principal parâmetro técnico utilizado para determinar a doçura e a qualidade do pêssego para o mercado.

Secamento Descendente: Problema fitossanitário em que fungos ou bactérias penetram por ferimentos de poda ou enxertia e causam a morte progressiva dos tecidos de cima para baixo. Pode ser evitado com o uso de pastas cicatrizantes e fungicidas nos cortes expostos.

RENASEM: Registro Nacional de Sementes e Mudas, o sistema de controle do Ministério da Agricultura que garante a origem e qualidade das mudas. Comprar de viveiros registrados é a única garantia legal de que a cultivar e o porta-enxerto são autênticos.

Veja como o Aegro ajuda a profissionalizar seu pomar

Produzir mudas de qualidade e formar um pomar produtivo exige, além de técnica, uma organização impecável. O sucesso da enxertia e o desenvolvimento das plantas dependem de um cronograma de atividades bem executado. Com o software de gestão agrícola da Aegro, você pode planejar e registrar cada manejo operacional diretamente pelo celular, garantindo que prazos cruciais — como o momento da enxertia ou a cicatrização — sejam cumpridos à risca, evitando perdas por falta de acompanhamento.

Além da parte técnica, proteger o seu bolso é essencial para garantir a longevidade da atividade. Como o retorno financeiro na fruticultura leva alguns anos, centralizar a gestão financeira e o armazenamento automatizado de notas fiscais no Aegro permite que você acompanhe o custo real de formação de cada talhão. Isso traz segurança documental sobre a origem das suas mudas e clareza sobre o investimento realizado até a primeira colheita.

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Perguntas Frequentes

Por que não é recomendado plantar o pêssego diretamente pelo caroço em pomares comerciais?

Plantar o caroço resulta em uma ’loteria genética’, onde a nova planta raramente mantém as características de sabor e tamanho da fruta original. Para garantir um pomar uniforme e produtivo, utiliza-se a técnica de enxertia, que funciona como uma clonagem da variedade desejada, garantindo que todas as frutas tenham o padrão exigido pelo mercado.

Qual é a função do porta-enxerto e como escolher o ideal para minha região?

O porta-enxerto é a base da planta, responsável pela resistência a doenças, adaptação ao solo e vigor de crescimento. No Brasil, o ‘Okinawa’ é muito utilizado no Sudeste pela sua adaptação climática, enquanto o ‘Capdeboscq’ é preferido no Sul; a escolha deve considerar fatores como a umidade do solo e a presença de pragas locais.

O que acontece se eu enterrar o ponto de enxertia na hora do plantio?

Enterrar o ponto de enxertia pode causar o ‘franqueamento’, que é quando a variedade da copa solta raízes próprias. Isso anula os benefícios do porta-enxerto escolhido, como a resistência a nematoides ou o controle de tamanho da árvore, deixando a planta vulnerável a problemas que o sistema radicular original deveria evitar.

Quais são os riscos de tentar enxertar pêssego sobre um pé de ameixeira?

Diferente da ameixa sobre pêssego, que costuma funcionar bem, a enxertia de pêssego sobre ameixeira apresenta alta taxa de incompatibilidade. Isso pode resultar em plantas fracas, amarelecidas ou que quebram facilmente no ponto de união após ventos fortes, levando à morte precoce da frutífera.

Como identificar se uma muda de pêssego é de boa qualidade no momento da compra?

Como não é possível diferenciar visualmente os porta-enxertos em mudas de raiz nua, a segurança vem da procedência. Compre apenas de viveiros registrados no RENASEM e exija uma nota fiscal que detalhe especificamente tanto a variedade da copa quanto o tipo de porta-enxerto utilizado na produção daquela muda.

Qual o momento ideal para realizar a enxertia de borbulhia e como garantir que ela ‘pegue’?

O processo é geralmente realizado entre novembro e janeiro, quando o porta-enxerto atinge a grossura de um lápis. Para o sucesso da ‘pega’, é fundamental fazer um amarrio firme com fita plástica para evitar a entrada de ar ou água e realizar a técnica de ‘forçagem’, quebrando a haste superior para direcionar a seiva para a gema enxertada.

É viável produzir mudas através de estacas (autoenraizadas) em vez de enxertia?

Embora seja tecnicamente possível e resulte em um sistema radicular vigoroso, a produção por estacas exige uma estrutura cara de nebulização intermitente para evitar o dessecamento. Além disso, ainda há pouca pesquisa sobre o comportamento dessas plantas autoenraizadas em diferentes tipos de solo no campo, tornando a enxertia um método mais seguro e testado.

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  • Produção de Mudas Cítricas: Guia Completo das Etapas e Legislação: Conecta-se diretamente ao alerta do artigo principal sobre a importância de mudas certificadas e o registro no RENASEM. Ele detalha as etapas de viveiro e a legislação vigente, ajudando o produtor a entender os processos de qualidade que garantem que ele não ‘compre gato por lebre’.
  • Senar Goiás e Aegro: Gestão Digital Transformando a Assistência Técnica: Este artigo serve como um estudo de caso prático para a seção final do texto principal, que recomenda o uso do software Aegro. Ele ilustra como a gestão digital e o controle de custos auxiliam na profissionalização do pomar e na viabilidade financeira de longo prazo mencionada no texto sobre pêssegos.
  • Laranja Hamlin: O Guia Completo da Cultivar Precoce para Pomares Produtivos: Enquanto o artigo principal foca na formação da muda, este guia de cultivar oferece o próximo passo lógico: o manejo de uma variedade específica para alta produtividade. Ele exemplifica a importância de escolher a ‘copa’ correta para atender ao mercado, alinhando-se ao objetivo de padronização comercial discutido.
  • Corda-de-Viola: Guia Completo para Identificar e Controlar esta Planta Daninha: O manejo de plantas daninhas é um dos pilares do sucesso do pomar após a enxertia, e a corda-de-viola é particularmente problemática em frutíferas por seu hábito trepador. Este artigo fornece soluções práticas para um desafio de campo que pode comprometer o vigor das mudas recém-plantadas descrito no texto principal.