Trigo de Duplo Propósito: Guia Prático de Plantio [2025]

Foto de perfil de Redação Aegro
Equipe de especialistas da Aegro, dedicada a levar conhecimento, tecnologia e inovação para o produtor rural brasileiro.
Imagem de destaque do artigo: Trigo de Duplo Propósito: Guia Prático de Plantio [2025]

Índice

O Que é Esse Tal de Trigo de Duplo Propósito?

Todo inverno é a mesma história: o pasto seca, o gado emagrece e a conta da ração sobe. Você já passou por isso e sabe que o “vazio forrageiro” tira o sono de quem cria. Mas e se eu te dissesse que dá para engordar o boi no inverno e ainda colher grão para vender depois?

O trigo de duplo propósito serve exatamente para isso. O nome já diz tudo: ele tem duas funções. Primeiro, ele vira pasto de alta qualidade no outono e início do inverno, quando a comida está escassa. Depois que você tira os animais, a planta se recupera e produz grãos para a colheita ou massa para silagem.

Não é um trigo diferente na aparência, mas ele foi “treinado” para aguentar desaforo. Ele tem um ciclo mais longo, perfilha mais (enche mais o chão) e tolera o pisoteio e a desfolha pelos animais.


Como Plantar Para Não Perder Tempo (Nem Dinheiro)

Uma dúvida que sempre aparece na roda de conversa é: “Posso plantar do mesmo jeito que o trigo comum?”. A resposta curta é: não. Se você tratar igual, vai ter resultado ruim.

A principal diferença está no calendário. Como ele precisa crescer para o gado comer e depois crescer de novo para dar espiga, ele precisa de mais tempo de chão.

O passo a passo para não errar:

  1. Antecipe o plantio: Plante antes do trigo só de grão. Para cultivares semitardias (como o BRS Umbu), antecipe uns 20 dias. Se for tardia (como o BRS Tarumã), pode antecipar até 40 dias.
  2. Aumente a semente: Você precisa de mais plantas por metro. O ideal é mirar entre 330 a 400 sementes aptas por metro quadrado.
  3. Espaçamento: Mantenha uns 20 cm entre as linhas.
  4. Região: Funciona muito bem no Sul (RS, SC, sul do PR). O pessoal do Cerrado (GO, MG, DF) está testando nas áreas mais altas e frias, mas o “filé” ainda é a região Sul.

💡 DICA DE QUEM JÁ FEZ: Plantar mais cedo ajuda a cobrir o solo rápido. Isso segura a umidade e diminui o risco de geada pegar a planta na fase mais sensível lá na frente.


O Segredo do Ponto de Pastejo: Quando Entrar e Quando Sair?

O maior medo do produtor é: “Se eu deixar o gado entrar, vou perder os grãos?”. Se você errar a altura, perde mesmo. Mas se acertar, você ganha nas duas pontas.

O manejo aqui é igual dirigir colheitadeira: tem que estar atento aos sinais.

A regra da régua:

  • Hora de Entrar: Quando o trigo bater na canela, entre 20 cm e 30 cm de altura. Isso dá uns 45 a 70 dias depois que nasceu.
  • Hora de Sair (do piquete): Não deixe o gado “rapar” o chão. Tire os animais quando sobrar de 5 cm a 10 cm de altura (altura de resteva).
  • Lotação: Geralmente vai de 2 a 3 novilhos por hectare ou 2 a 3 vacas de leite.

E quantos pastejos dá para fazer? Depende da variedade. Com um trigo tipo BRS Umbu, geralmente dá um pastejo. Com o BRS Tarumã, que é mais tardio, dá para fazer dois ciclos tranquilamente e ainda colher bem (mais de 1.800 kg/ha de grão).

⚠️ ATENÇÃO: O momento crítico para PARAR o pastejo de vez é o “alongamento”. Como saber? Corte um talo rente ao chão. Se o talo estiver oco por dentro, pare imediatamente! Isso significa que a futura espiga já está subindo. Se o gado comer essa parte, adeus colheita de grão.


Adubação: O Nitrogênio que o Gado Leva, Você Repõe

Muitos produtores esquecem que, quando o boi come o pasto, ele está “levando embora” nutrientes que fariam o grão crescer. Embora o animal devolva parte no esterco e urina, essa distribuição é mal feita no pasto.

A adubação de base é igual à do trigo comum (feita pela análise de solo). O pulo do gato está na adubação de cobertura com Nitrogênio (N).

A conta prática de padaria: Para cada tonelada de massa seca que o gado comeu, você precisa repor 30 kg de Nitrogênio por hectare.

  • Fez um pastejo (ex: BRS Umbu)? Jogue 30 kg/ha de N assim que tirar o gado.
  • Fez dois pastejos (ex: BRS Tarumã)? Jogue 30 kg/ha depois do primeiro ciclo e mais 30 kg/ha depois do segundo.

Isso garante que a planta tenha força para rebrotar e encher o grão depois.


Vale a Pena no Cocho? Nutrição e Silagem

“Mas Seu Antônio, esse trigo alimenta mesmo ou é só bucha?” Vamos aos fatos. O trigo de duplo propósito não é só “verde”. Ele é comida forte.

📊 NÚMEROS QUE IMPORTAM:

  • Proteína Bruta (Pasto Verde): Mais de 20%. É muita proteína.
  • Digestibilidade: Perto de 70%. O animal aproveita quase tudo.
  • Silagem de Trigo x Milho: A silagem de trigo ganha na proteína (10% contra 8% do milho), mas perde um pouco na energia e digestibilidade.

Para quem tira leite, é um prato cheio. Você pode usar o grão ou a silagem para substituir parte do milho na ração. E se a ideia for silagem, o trigo BRS Umbu é ótimo porque não tem aristas (aquele “fiapo” da espiga), o que não machuca a boca do bicho.


Bolso Cheio: Custos e Flexibilidade

No fim das contas, o que importa é o que sobra no bolso. O custo para fazer o trigo duplo propósito é muito parecido com o trigo comum de médio investimento. O maquinário é o mesmo: plantadeira e colheitadeira que você já tem no galpão.

A grande vantagem é a flexibilidade.

Guia completo sobre as culturas de inverno

Imagine o cenário: O preço do trigo despencou, mas a arroba do boi ou o litro do leite estão pagando bem. Com o duplo propósito, você pode decidir no meio do caminho não colher grão e deixar o gado pastar mais, ou fazer silagem. Você não fica refém de um mercado só.

Estudos mostram que integrar lavoura e pecuária assim rende mais do que deixar o pasto nascer sozinho (pasto guaxa). O retorno pode pagar de 5% a 80% do custo, dependendo de como estiver o mercado de carne e grãos.

💡 DICA DE QUEM JÁ FEZ: O pisoteio do gado, se feito com a lotação certa e respeitando a altura do pasto, NÃO compacta o solo e NÃO atrapalha a soja que vem depois. Pelo contrário, ajuda a girar o caixa da fazenda o ano todo.


Glossário

Vazio Forrageiro: Período crítico entre as safras de pastagens de verão e inverno em que há escassez de alimento natural para o gado. No Brasil, ocorre geralmente no outono e início do inverno, sendo combatido com o uso de culturas de ciclo invernal.

Perfilhamento: Capacidade da planta de emitir novos caules (perfilhos) a partir da base do caule principal. Essa característica é fundamental no trigo de duplo propósito para garantir uma cobertura densa do solo e maior volume de massa para o pastejo.

Alongamento: Fase do desenvolvimento da planta em que os nós do colmo se distanciam e a futura espiga começa a subir. É o estádio fenológico que define o fim do período de pastejo, pois o dano ao ápice de crescimento impede a produção de grãos.

Aristas: Estruturas filamentosas pontiagudas localizadas nas extremidades das espigas de certas gramíneas. Cultivares sem aristas (muticun) são preferidas para silagem e pastejo direto para evitar lesões na boca e no trato digestório dos animais.

Massa Seca (MS): Medida que indica o peso do alimento vegetal após a retirada total de sua umidade em estufa. É o parâmetro técnico utilizado para calcular a real oferta de nutrientes e a capacidade de suporte de uma pastagem por hectare.

Cultivares Tardias: Variedades de plantas que possuem um ciclo de vida mais longo, demorando mais tempo para completar seu desenvolvimento reprodutivo. No sistema de duplo propósito, permitem um maior número de ciclos de pastejo antes da colheita de grãos.

Como a tecnologia ajuda no sucesso do trigo de duplo propósito

Gerenciar o tempo certo de entrada e saída do gado, além de calcular a reposição exata de nitrogênio, pode ser um desafio complexo no dia a dia. O Aegro ajuda a simplificar essa jornada, permitindo que você registre as atividades de pastejo e monitore o desenvolvimento da lavoura em tempo real pelo celular. Com tudo centralizado, fica mais fácil identificar o momento exato de retirar os animais e garantir que a produção de grãos não seja prejudicada.

Além da parte operacional, o controle financeiro é fundamental para entender se a estratégia está sendo lucrativa. O software do Aegro automatiza o cálculo de custos com insumos e gera relatórios precisos, ajudando você a enxergar a rentabilidade da integração lavoura-pecuária com clareza, eliminando erros de anotações manuais e facilitando a tomada de decisão.

Vamos lá?

Que tal modernizar a gestão da sua fazenda e ter os números na palma da mão para lucrar mais? Experimente o Aegro gratuitamente e veja como otimizar seus resultados, do pasto ao grão.

Perguntas Frequentes

O que diferencia tecnicamente o trigo de duplo propósito do trigo comum?

A principal diferença é que as variedades de duplo propósito foram selecionadas para suportar o pastejo e a desfolha sem comprometer totalmente a produção final. Elas possuem um ciclo de crescimento mais longo, maior capacidade de perfilhamento (enchem mais o solo) e uma resistência superior ao pisoteio dos animais. Enquanto o trigo comum é focado apenas no grão, o de duplo propósito é ’treinado’ para se recuperar e produzir mesmo após ser servido como pasto.

Qual é o manejo ideal para garantir que o gado não prejudique a colheita de grãos?

O segredo está no controle da altura e no monitoramento do estágio da planta. Os animais devem entrar no piquete quando o trigo atingir entre 20 cm e 30 cm e sair quando sobrar uma altura de 5 cm a 10 cm (resteva). O ponto crítico para encerrar o pastejo definitivamente é o início do alongamento do talo; se ao cortar um talo você notar que ele está oco por dentro, o gado deve ser retirado imediatamente para não comer a futura espiga.

Por que é necessário antecipar o plantio do trigo de duplo propósito?

A antecipação é fundamental porque a planta precisa de tempo extra para se desenvolver, passar pelos ciclos de pastejo e ainda ter fôlego para crescer novamente e produzir grãos. Dependendo da cultivar, recomenda-se plantar entre 20 a 40 dias antes do trigo convencional. Esse tempo adicional também ajuda a cobrir o solo mais rápido, conservando a umidade e protegendo a lavoura contra geadas tardias em fases sensíveis.

Como deve ser calculada a reposição de nitrogênio após a saída dos animais?

Como o gado consome a massa verde e retira nutrientes da área, a adubação de cobertura é essencial para a rebrota. A regra prática indica a aplicação de 30 kg de Nitrogênio por hectare para cada tonelada de massa seca consumida pelos animais. Se você realizar dois ciclos de pastejo, deve fazer essa reposição de forma parcelada após cada saída do gado para garantir que a planta tenha energia para encher os grãos no final.

O trigo de duplo propósito é realmente nutritivo para o rebanho leiteiro e de corte?

Sim, ele é considerado um alimento de alta qualidade, apresentando níveis de proteína bruta acima de 20% no pasto verde e cerca de 70% de digestibilidade. Em sistemas de corte, permite ganhos de peso superiores a 1 kg por dia em novilhos, enquanto em vacas leiteiras sustenta produções acima de 15 kg por dia. Além disso, a silagem de trigo é uma excelente alternativa, oferecendo mais proteína que a silagem de milho, embora com um pouco menos de energia.

A presença do gado na lavoura de trigo pode compactar o solo e prejudicar a soja no verão?

Não, desde que o manejo de altura seja respeitado. Quando o produtor mantém a carga animal adequada e retira o gado deixando pelo menos 10 cm de cobertura (resteva), o solo permanece protegido e a estrutura física não é comprometida. Pelo contrário, a integração lavoura-pecuária bem gerida melhora a ciclagem de nutrientes e a rentabilidade da área, preparando o terreno de forma eficiente para a sucessão com a soja.

Artigos Relevantes

  • Guia Completo da Adubação de Trigo: Do Plantio à Colheita: Este artigo complementa a discussão sobre a reposição de Nitrogênio mencionada no texto principal, detalhando o manejo de N, P e K. Ele oferece o suporte técnico necessário para o produtor aplicar a ‘regra de padaria’ citada, garantindo que a planta tenha nutrição completa para a rebrota após o pastejo.
  • Plantio de Trigo: Do Preparo do Solo à Colheita - Safra 2025/26: Enquanto o texto principal foca nas especificidades do plantio antecipado para duplo propósito, este guia expande para o preparo do solo e semeadura técnica. Ele é fundamental para o produtor que está planejando a safra 2025/26 e precisa alinhar o calendário de integração lavoura-pecuária com as boas práticas agrícolas.
  • Qualidade do Trigo: 3 Fatores que Definem o Preço da sua Safra: Este artigo é crucial pois conecta a fase de colheita do grão (pós-pastejo) com a rentabilidade financeira. Ele explica como fatores como o Peso Hectolitro (PH) definem o preço, permitindo que o produtor avalie se o manejo de duplo propósito está resultando em um grão comercialmente competitivo.
  • Guia Completo: As 8 Principais Doenças do Trigo e Como Fazer o Manejo Correto: Como o trigo de duplo propósito tem um ciclo mais longo e é plantado mais cedo, ele fica mais exposto a patógenos. Este guia de doenças oferece a visão preventiva necessária para proteger a lavoura durante o período de rebrota, garantindo que o potencial produtivo de grãos não seja dizimado por fungos após a saída do gado.
  • Colheita de Trigo: Guia Completo para Evitar Perdas e Maximizar a Produtividade: Este artigo fecha a jornada do conhecimento ao tratar da etapa final descrita no texto principal. Ele fornece orientações práticas para evitar perdas na colheita e gerenciar riscos como geadas tardias, algo que o produtor de duplo propósito deve monitorar de perto devido ao ciclo estendido da cultura.