O que é Car E
No contexto técnico do setor sucroenergético, a tag Car E refere-se à Cana Energia (ou Cana-Energia). Diferente da cana-de-açúcar convencional, que foi geneticamente melhorada ao longo de décadas para acumular sacarose (açúcar), a Cana Energia é uma variedade desenvolvida com foco na produção massiva de biomassa e fibras. Ela é o resultado de cruzamentos entre espécies comerciais e espécies selvagens de Saccharum, visando maximizar o volume de matéria vegetal por hectare, sendo uma peça-chave para a cogeração de energia elétrica e a produção de etanol de segunda geração (2G).
Enquanto a cana convencional busca o equilíbrio entre peso e teor de açúcar (ATR), a Cana Energia prioriza a rusticidade e o vigor vegetativo. No cenário brasileiro, onde a busca por eficiência na produção de etanol e bioeletricidade é constante, essa cultura surge como uma alternativa para compor o mix de produção das usinas. Ela permite o aproveitamento de áreas com solos mais pobres ou com déficit hídrico, onde variedades tradicionais teriam baixa produtividade, garantindo fornecimento de matéria-prima para as caldeiras e destilarias.
A introdução da Cana Energia no sistema produtivo não visa substituir a cana-de-açúcar tradicional, mas sim complementá-la. Em um mercado volátil, como o analisado na safra 2019/20, onde os preços do ATR flutuam e a demanda por etanol pode superar a de açúcar, ter canaviais de alta fibra oferece às usinas maior segurança energética e flexibilidade industrial, permitindo estender o período de moagem e aumentar a cogeração de eletricidade excedente para venda na rede.
Principais Características
- Alto Teor de Fibra: A característica mais marcante é o teor de fibra, que pode variar entre 18% e 30% (contra 12% a 14% da cana convencional), tornando-a ideal para queima em caldeiras e produção de bioenergia.
- Baixo Teor de Sacarose (ATR): Possui menor concentração de açúcares recuperáveis por tonelada se comparada às variedades nobres, o que exige um manejo industrial diferenciado para a extração de etanol.
- Produtividade Elevada: Tem potencial para produzir mais que o dobro de biomassa por hectare em comparação à cana convencional, podendo ultrapassar 150 a 200 toneladas por hectare em cortes sucessivos.
- Sistema Radicular Vigoroso: Apresenta raízes mais profundas e agressivas, o que confere maior tolerância ao estresse hídrico e auxilia na recuperação da estrutura do solo e no sequestro de carbono.
- Longevidade do Canavial: As soqueiras (rebrotas) da Cana Energia tendem a manter a produtividade por mais cortes (ciclos), reduzindo a necessidade de reforma frequente do plantio e diminuindo custos operacionais a longo prazo.
Importante Saber
- Destinação Industrial: Devido ao baixo teor de açúcar e alta fibra, esta matéria-prima não é indicada para a produção de açúcar cristal ou VHP. Seu foco é exclusivamente a produção de etanol (hidratado ou anidro) e a geração de bioeletricidade.
- Impacto no ATR Médio: Ao processar Cana Energia, a usina deve estar ciente de que o ATR médio da moagem cairá. O ganho econômico vem do volume de etanol produzido por hectare e da venda de energia, não da qualidade do caldo individual.
- Logística de Colheita: Devido ao alto volume de massa verde e fibra, a colheita e o transporte exigem dimensionamento adequado da frota e das colhedoras, pois a densidade da carga e o desgaste das facas de corte podem ser maiores.
- Janela de Corte: A Cana Energia possui um ciclo flexível, podendo ser colhida nas pontas de safra (início ou fim), ajudando a estender o período de operação da indústria quando a cana convencional ainda não atingiu a maturação ideal ou já perdeu qualidade.
- Competitividade com Outras Fontes: Assim como o etanol de milho citado no contexto de mercado, a Cana Energia é uma tecnologia de “produtividade vertical”, permitindo produzir mais energia na mesma área, fundamental em cenários de redução de área colhida.